O jornalismo é, segundo analistas de diferentes áreas e de diversos países, o melhor antídoto contra a propagação de notícias falsas e discurso de ódio nas redes sociais. O caso do site de notícias Rappler, das Filipinas, comprova esse entendimento. Em artigo para a Associação Mundial de Jornais e Editores de Notícias (WAN-IFRA), Maria Ressa, editora executiva, co-fundadora e CEO do veículo noticioso, conta como a resistência jornalística de sua equipe para combater a desinformação, mesmo diante de uma campanha difamatória do governo de Rodrigo Duterte e em um país onde 97% dos filipinos na internet se conectam via Facebook, conseguiu fortalecer o jornalismo e contribuir para uma maior conscientização sobre os riscos impostos pelo modelo negócios da rede social norte-americana à democracia e à verdade.

Desde a eleição do presidente filipino, também em 2016, o Rappler tem sido vítima de uma campanha online de partidários do mandatário do país com o objetivo de desacreditar a organização de mídia e abafar críticas ao governo. O veículo também enfrenta ações judiciais, inspeções fiscais e investigações administrativas comandadas pelo governo. Ao mesmo tempo, Maria Ressa é alvo de ataques constantes de ódio cada vez mais hostis e direcionados ao gênero. Em vez de se resguardar das ameaças, a jornalista e o Rappler tornaram-se porta-vozes da denúncia do assédio online, das notícias falsas e das mensagens de ódio, alertando para os efeitos negativos do mau uso das redes sociais.

Ressa conta que o Rappler começou a coletar dados em julho de 2016 e, em agosto, toda a redação já estava alarmada. “Em uma reunião com três funcionários do Facebook em Cingapura, entreguei os dados que mostraram que uma rede de fantoches de 23 contas falsas podia influenciar até 3 milhões de usuários, além de delinear as campanhas de ódio que pareciam estar virando o mundo de cabeça para baixo, criando uma espiral de silêncio”, diz. Eu disse a eles que estávamos tão alarmados que começamos uma campanha #NoPlaceForHate (sem lugar para o ódio) para ajudar aqueles que foram intimidados”. A jornalista revela que, apesar de em tom de brincadeira, avisou: “Por favor, estudem isso e façam algo. Afinal, as eleições dos Estados Unidos estão chegando e Trump pode vencer!”. Ressa lembra que todos riram, mas quando Trump venceu logo em seguida, em novembro, o Facebook pediu os dados novamente.

Em outubro de 2017, o Rappler publicou reportagens sobre como o Facebook estava potencializando o armamento (leia mais sobre isso aqui) dos grupos interessados na divisão social e política do país. Isso tinha base em perfis de pessoas pagas para disseminar ódio e raciocínio falacioso; os algoritmos do Facebook, impulsionando postagens com mais curtidas e compartilhamentos, sem distinguir fatos da ficção – e a companhia do Vale do Silício se recusando a excluir as falsidades; e contas falsas que propagam mentiras e propaganda.

Isso tudo parece ter custado caro ao Facebook. Em janeiro de 2016, o principal classificador de sites das Filipinas, o Alexa, registrava o Facebook em uma confortável primeira colocação. O ódio espalhou-se de forma exponencial na rede social a partir dali. “A maioria das pessoas assistia horrorizada; muitos fecharam o Facebook e, em janeiro de 2017, o Facebook caiu para o 8º lugar”, diz Ressa, agraciada neste ano com o prêmio anual de liberdade de imprensa da WAN-IFRA, o Golden Pen of Freedom Awarded.

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https://blog.wan-ifra.org/2018/07/31/maria-ressa-on-facebook-truth-and-the-crisis-of-democracy