O GLOBO – 13/08/2018

BRIAN X. CHEN Do New York Times

Esta semana me deparei com um tópico que muitos concordam não ter solução fácil: os comentários on-line. Ao longo da última década, eles se expandiram para além de uma caixa sob artigos na internet. Isso abriu as portas para bullying agressivo, assédio e desinformação —frequentemente com duras consequências na vida real.

Caso em questão: o site Infowars. Durante anos ele espalhou informações falsas que inspiraram “trolls” a assediarem pessoas que eram próximas de vítimas do tiroteio na escola de Sandy Hook. Na última semana, depois de muita hesitação, alguns dos gigantes da tecnologia baniram seu conteúdo (menos o Twitter).

O que isso nos mostra? Que você, usuário da internet, tem pouco poder sobre o conteúdo on-line que considera ofensivo. São as empresas de tecnologia que têm as cartas na mão.

Por que os comentários são tão ruins, e como podemos nos proteger? Existem algumas medidas que podemos almejar tomar. Por que as pessoas são tão tóxicas on-line? Existem muitas teorias sobre por que a internet parece expor o pior delas. Juntei alguns achados dignos de nota.

TENTAÇÃO DE ATACAR

Zizi Papacharissi, professora de Comunicação na Universidade de Illinois, disse que, nos seus 20 anos de pesquisas e entrevistas com pessoas sobre comportamento on-line, uma conclusão se manteve consistente: os indivíduos usam a internet para ter mais do que conseguem no dia a dia. Então, embora tenham sido socializados pararesistirà impulsividade no mundo real, na rede eles cedem às tentações de atacar.

— A internet se torna um veículo fácil para gritarmos algo enos sentirmos satisfeitos, mesmo que estejamos na verdade simplesmente gritando ao vento.

Antes, as pessoas levavam suas frustrações para os talk shows da TV e do rádio. A internet é simplesmente um espaço mais acessível e menos moderado.

Daniel Ha, fundador da Disqus, uma ferramenta de comentários usada por muitos sites, disse que a qualidade dos comentários varia bastante, dependendo do conteúdo que está sendo discutido e o tipo de audiência que atrai. Há vídeos sobre tópicos de nicho, que abrem espaço para comentários construtivos. Mas há outros, como vídeos de um artista popular ou artigos noticiosos em geral, que pedem a pessoas do mundo todo que comentem. E é aí que as coisas podem ficar desregradas.

—Você tem um aeroporto de pessoas de todos ramos se juntando, e elas falam diferentes línguas com diferentes atitudes —aponta Ha.

Os comentários podem ser terríveis simplesmente porque muitas pessoas são falhas. Está nas mãos dos provedores de conteúdo e plataformas tecnológicas verificarem suas comunidades e estabelecerem regras e padrões para uma discussão civilizada.

E quanto aos comentários falsos? As empresas de tecnologia há muito empregam vários métodos para detectar aqueles que são falsos efeitos por robôs. Os chamados “testes de Captcha”, da sigla “procedimentos automatizados para diferenciar humanos de computadores”, pedem para o sujeito escrever uma palavra ou selecionar fotos para verificar se ele é uma pessoa ou um robô. Outros métodos, como detectar o tipo de equipamento ou localização de um comentarista, também podem ser usados. Ainda assim, especialistasem segurança mostraram que há maneiras de“dara volta” nesses métodos.

O que podemos fazer? Na questão dos comentários falsos, há uma solução bem simples: você pode denunciá-los para o dono do site, que então pode analisá-los e removêlos. Além disso, não leve esses comentários tão a sério. O cientista de dados Jeff Kao diz que devemos sempre tentar vê-los em um contexto mais amplo. Analise o histórico do comentarista em publicações passadas, ou cheque os fatos de alegações dúbias em outros lugares da rede. Para os comentários verdadeiramente ofensivos, a realidade é que os consumidores têm pouco poder de lutar contra eles.

REDES DECIDEM O QUE FICA

Empresas de tecnologia como YouTube, Facebook e Twitter publicaram diretrizes sobre quais tipos de materiais são permitidos em seus sites e fornecem ferramentas para as pessoas marcarem e denunciarem comentários impróprios. Uma vez que você denuncia, no entanto, está nas mãos das companhias decidirem se eles ameaçam sua segurança ou violam a lei — e frequentemente os assediadores sabem o quão ofensivos podem ser sem quebrar as regras. Historicamente, as empresas hesitam em remover comentários impróprios, mantendo a posição de plataformas neutras onde as pessoas podem se expressar livremente.

Além de denunciar comentários individualmente, você pode usar ferramentas de petições on-line para demandar que as empresas de tecnologia removam conteúdos ofensivos (mas note que apoiadores do Infowars já estão nesses sites pedindo que seu conteúdo seja restaurado pelo YouTube).

Quando veículos e empresas fracassam em lidar com comentários impróprios, Papacharissi recomenda exercitar a disciplina:

—Pense antes de falar. Você nem sempre tem que responder. Muitas coisas não merecem resposta. Algumas vezes não responder é mais eficiente do que atacar de volta.