O ESTADO DE S.PAULO – 19/08/2018

The Economist

A internet transformou a maneira como as pessoas trabalham e se comunicam. Mudou drasticamente setores que vão do entretenimento ao varejista. Mas seu efeito mais profundo talvez seja no caso da mais importante decisão a ser tomada por muitas pessoas – a escolha de um companheiro.

No início dos anos 1990, a ideia de encontrar um parceiro online era algo bizarro e um pouco patético. Hoje, em muitos lugares isto é normal. Os smartphones acabaram com os bloqueios virtuais das pessoas e os solteiros se relacionam livres das restrições impostas pela geografia física ou social. No plano global, pelo menos 200 milhões de pessoas usam serviços de namoro online a cada mês. Nos Estados Unidos, mais de um terço dos casamentos começa hoje com um namoro online. A internet é o segundo recurso mais popular entre os americanos para travar conhecimento com pessoas do sexo oposto e vem rapidamente se igualando às apresentações do “amigo de um amigo” no mundo real.

O namoro digital é um experimento social enorme, conduzido por meio de um dos processos mais íntimos e vitais da humanidade. Os seus efeitos apenas começam a se tornar visíveis.

Quando Harry clicou em Sally.

Encontrar um parceiro na internet é fundamentalmente distinto de um encontro offline. No mundo físico, eles são encontrados em redes familiares ou em círculos de amigos e colegas. Namorar o amigo de um amigo é a norma. As pessoas que se encontram online provavelmente não se conhecem. Como resultado, o namoro digital oferece muito mais opções. Em um bar, um coral, ou um escritório existem algumas dezenas de parceiros potenciais para uma pessoa. Online são dezenas de milhares.

Essa grande variedade de escolha, mais o fato de que as relações digitais são feitas somente com consentimento mútuo, tornam o mercado de namoro digital muito mais eficiente do que o offline. Para alguns, a notícia é ruim. Por causa da diferença enorme entre os sexos no que se refere à seletividade, alguns homens estão condenados a nunca encontrar um parceiro. No aplicativo chinês Tantan, os homens manifestam interesse em 60% das mulheres que eles olham, mas as mulheres se mostram interessadas em apenas 6% dos homens; essa dinâmica sugere que 5% dos homens nunca conseguirão marcar um encontro.

No namoro offline, com um grupo muito menor de homens à disposição, as mulheres têm mais probabilidade de se ligar com homens que não estão buscando uma parceira online.

Para muitas pessoas, porém, o namoro digital propicia resultados melhores. Uma pesquisa concluiu que nos EUA os casamentos entre pessoas que se conheceram pela internet têm probabilidade de durar mais; esses casais se dizem mais felizes do que aqueles que se conheceram offline. A sensação de pânico moral que envolve os aplicativos de namoro é exagerada. Existem poucas evidências de que as oportunidades online incentivam a infidelidade. Nos Estados Unidos, o número de divórcios disparou até pouco antes do advento da internet e depois diminuiu.

O namoro online é uma bênção particularmente para aquelas pessoas com requisitos particulares. O Jdate permite que os interessados filtrem encontros com quem não pensa em se converter ao judaísmo, por exemplo. Nos Estados Unidos, 70% dos gays encontram seus parceiros online. Esse espectro de diversidade sexual é uma dádiva: mais pessoas podem encontrar o tipo de relação que procuram.

Mas há problemas no caso do amor moderno. Muitos usuários se queixam de estresse quando se deparam com as brutais realidades desse mercado da carne digital e o seu lugar dentro dele. Emoções negativas sobre a imagem do corpo já existiam antes da internet, mas se amplificaram, uma vez que estranhos podem fazer julgamentos instantâneos sobre a capacidade de atração de alguém. O namoro digital está ligado à depressão. Os mesmos problemas

que afligem outras plataformas digitais são recorrentes neste campo, como fraudes e contas falsas; 10% de todos os perfis em sites de namoro criados recentemente não pertencem a pessoas reais.

Esse novo mundo de romance também pode ter consequências inesperadas para a sociedade. O fato de os interessados em namoro online terem tanta possibilidade de escolha derruba barreiras: evidências sugerem que a internet está fomentando os casamentos interraciais, contornando os grupos sociais homogêneos. Mas eles também estão mais aptos a escolher parceiros iguais a eles próprios.

O processo pelo qual pessoas com níveis de educação e renda similares se reúnem já vem sendo acusado de promover a desigualdade de renda. O namoro online torna esse efeito mais pronunciado: os níveis educacionais são exibidos com destaque nos perfis dos sites de namoro como nunca o foram offline. Não é difícil imaginar os serviços de namoro juntarem pessoas

por características escolhidas, determinadas pelos dados dos genomas baixados. As empresas especializadas também se defrontarão com um conflito de interesse inerente. A parceria perfeita vai despojá-las de clientes pagantes.

O domínio do namoro online por algumas empresas e seus algoritmos é outra fonte de preocupação. Os aplicativos de namoro não se beneficiam dos mesmos efeitos de rede, como é o caso de outras plataformas. Os amigos de uma pessoa não precisam estar em um site específico de namoro por exemplo. Mas a retroalimentação entre grandes conjuntos de dados gerados por um número crescente de usuários atraídos para um produto ainda existe. A entrada no mercado do Facebook armado com dados dos seus 2,2 bilhões de usuários fornecerá indícios quanto a se o namoro online inexoravelmente irá se consubstanciar em poucas e grandes plataformas.

Enquanto vocês estão compartilhando.

Mas mesmo que o mercado não fique ainda mais concentrado, o processo de união de casais se tornará mais centralizado. Um encontro entre duas pessoas costumava ser uma atividade que ocorria em bares, clubes, igrejas e escritórios; agora um número enorme depende de algumas empresas para encontrar seu parceiro.

Empresas que manipulam um pequeno número de programas de computador, modificando os algoritmos que determinam quem vê quem no bar virtual, e um tremendo poder para gerir os resultados da parceria. Em sociedades autoritárias, a perspectiva de casamentos arranjados por algoritmos deve causar inquietação. A concorrência oferece alguma proteção contra tal possibilidade e uma maior transparência sobre os princípios usados pelos aplicativos de namoro também pode ajudar.

Mas tais preocupações não devem obscurecer o lado bom que decorre dessa maneira moderna de começar um romance. Os parceiros certos podem estimular e impulsionar um ao outro. Se forem errados, podem arruinar suas vidas. O namoro digital oferece a milhões de pessoas uma maneira mais eficiente de encontrar um bom companheiro. O que é algo que se deve amar.