O GLOBO – 26/08/2018
DORRIT HARAZIM
Dias atrás surgiu um frescor no noticiário: dois repórteres do “Washington Post” foram a Plains, cidadezinha caipira do estado sulista da Geórgia, para saber o que pensa e faz hoje, quase aos 94 anos, Jimmy Carter, o mais antigo ex-presidente dos Estados Unidos (38 anos fora do poder). “Jimmy” não mudou em nada, continua a tocar sua vida despojada pautado por imperativos morais. Enxotado do poder por uma humilhante derrota eleitoral em 1980, ele continuou a honrar o papel de “servidor público”. A reportagem transportava o leitor à era pré-fake, distante da atual Casa Branca comandada por um quase pária em seu próprio país.
Na mesma semana, outro ex-presidente, o uruguaio José “Pepe” Mujica, de temperamento, currículo, estilo e perfil quase opostos ao de Carter, comunicou sua renúncia à cadeira que ocupava no Senado desde 2014. O motivo foi tão singelo quanto raro: “Eu diria que estou cansado da longa viagem”, explicou em carta, aos 83 anos. Mas acrescentou: “Enquanto minha mente funcionar, não renunciarei à solidariedade e à luta de ideias”. Traduzindo: continuará a pautar a vida seguindo seus imperativos sociais. Mujica, como se sabe, é um mutante radical. Se nos anos 1970 ele foi guerrilheiro dos Tupamaros, o movimento esquerdista que incluiu sequestros, atentados e execuções como armas de luta, em 2010 tornou-se um dos presidentes menos autoritários do continente. E, certamente, o mais despojado, enfiado na sua chácara perto de Montevidéu, de sandália e meias. Os críticos de “Pepe” costumam retratá-lo como um velho guerreiro que aposentou armas e ideais para tornar-se um socialista pragmático. Atribuem mais estilo do que substância ao personagem. Bobagem, ele apenas soube mudar de armas: conseguiu oficializar a descriminalização do aborto, do uso da maconha e fez aprovar o casamento gay no Uruguai. Pouca coisa não é para um ex-guerrilheiro que quase enlouqueceu na solitária em seus tempos de prisão e colocava pedras na boca para não gritar, como narrou o escritor britânico Giles Tremlett.
Já Carter é um homem de fé, que ministra aulas dominicais em sua igreja batista de Plains. Nunca aceitou dar palestras remuneradas nem participar de rentáveis conselhos empresariais. Vive bem com sua pensão anual de US$ 210 mil e a publicação de livros (já são 33), e investe todo o tempo que já não lhe resta no programa Habitat for Humanity, que reforma milhares de casas de família de baixa renda em 14 países.
A seu modo, o ex-presidente americano reinventou a condição de ex-presidente — injetou-lhe honradez e sentido. E Pepe Mujica, por seu lado, ensinou que partidos não precisam ficar aprisionados à própria ideologia. Foi o primeiro líder socialista a deixar exposta a ferida nicaraguense numa dolorida crítica à política repressiva do presidente Daniel Ortega, o outrora revolucionário “Comandante Daniel”. Aguarda-se até hoje um posicionamento semelhante por parte do PT brasileiro.
Mujica sabe que a vida não é uma utopia. Dois meses atrás, ao ser questionado sobre sua visita ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba, respondeu o que cabia: “Me faço perguntas e tenho incertezas. Mas Lula somos todos os que têm problemas na América Latina.”
Ter incertezas aos 83 anos é um esplendor, e não deve ser confundido com não ter convicções. E defender a verdade e os fatos na esfera pública, insurgir-se contra o engessamento de ideias, como faz até hoje o nonagenário Carter, é raro. Ambos dão valor e peso a palavras. Sempre fugiram de clichês, essas “metáforas surradas sem poder evocativo, usadas apenas por quem não consegue criar frases próprias”, na definição de George Orwell.
Em meio a leituras sobre esses dois homens públicos, interveio a notícia da morte de Otavio Frias Filho. Chama atenção a qualidade, o zelo e a profundidade dos textos publicados em sua homenagem, tão superiores ao habitual, atestando o quanto cada autor procurou honrar o rigor e o intelecto do jornalista. Nada a acrescentar aqui. Otavio, assim como Carter e Mujica, foi austero no viver, ousado no pensar e tenaz no fazer. Por caminhos diversos, os três foram destemidos no explorar, no experimentar —há algo mais ousado do que a radical guinada de Carter em defesa dos direitos humanos no mundo?
Esse trio de mentes inquietas, tão díspares, talvez sequer gostasse de conviver entre si. Mas os três teriam curiosidade pessoal e interesse pelos ideais, valores, conhecimento do outro. O respeito de Otavio pelo leitor, o de Mujica pelo eleitor e o de Carter pelo próximo moldaram o legado que deixam para o jornalismo, para a política e para o mundo.