Uma das principais regras entre as gigantes de tecnologia que dominam o meio digital, diz o editor do site especializado Monday Note, Frederic Filloux, é sobreviver e crescer a todo o custo (aumentando o valor de ações e fortalecendo as gestões), pois a qualquer momento outra companhia com alguma grande inovação pode suplantar os atuais dominantes. Essa necessidade, afirma o jornalista, tem justificado dezenas de práticas questionáveis por parte dessas empresas – abuso de poder dominante, uso indevido de dados, espionagem corporativa etc. Mas o Facebook é um caso aparte, destaca Filloux.
Apesar de seu tamanho, a rede social é mortal, como seus concorrentes, mas o poder que Mark Zuckerberg detém, com 60% dos direitos de voto, faz com que o bilionário decida os rumos da empresa. E a decisões do executivo até aqui, enfatiza Filloux, têm priorizado manter o modelo de negócios, mesmo que isso insufle todos os problemas que causam descrédito ao Facebook, como a desinformação.
“Se amanhã ‘Zuck’ decidir promover uma grande reinvenção de sua empresa para torná-la um vetor menor de desinformação, ele poderá fazê-lo, muito mais facilmente do que qualquer CEO. Mas ele não vai. Pelo contrário”, aposta Filloux. O Facebook, analisa o jornalista, sempre navegará em uma linha tênue entre o custo de fazer quase nada contra as notícias falsas – lidando principalmente com danos na área de relações públicas, ações ou multas – e o alto preço para resolver o problema.
Tornar o Facebook menos propenso à disseminação de notícias falsas e discursos de ódio, continua Filloux, exigiria amplas mudanças nas principais características do sistema da rede social, como a publicidade programática, dirigida de forma cada vez mais sofisticada (abrindo caminho para um sistema de anúncios personalizados individualmente), e sua “câmara de eco” representada pelo WhatsApp. A publicidade segmentada do Facebook inclui anúncios políticos, e isso tem preocupado países, organizações de defesa dos consumidores, defensores dos direitos humanos e da livre expressão e diversos analistas.
“A política depende da praça pública – no debate aberto e coletivo”, diz a presidente Institute of Practitioners in Advertising (IPA), do Reino Unido, Sarah Golding. “Nós, no entanto, acreditamos que os anúncios políticos micro direcionados atenda isso. Um número muito pequeno de eleitores pode ser direcionado com mensagens específicas, online por apenas um breve período. Na ausência de regulamentação, acreditamos que essa forma quase oculta de comunicação política é vulnerável ao abuso”, completa ela.
Pedir ao Facebook para restringir essa prática, compara Filloux, é como solicitar à Coca-Cola que reduza seu nível de açúcar. O tipo de publicidade direcionada do Facebook é o que a rede social é, afirma o jornalista. “E, vamos admitir, funciona incrivelmente bem”. Filloux ressalta também que Facebook está continuamente refinando o seu meu modelo sem o mínimo escrúpulo, dando maior valor a lances de anunciantes com maior poder de engajamento, mesmo que a oferta do concorrente tenha a mesma cifra. “Não admira que Donald Trump tenha dominado o campo de batalha do Facebook durante a campanha de 2016”.
O caso do WhatsApp é ainda mais instigante. “Todos os observadores da cena digital global concordam que o aplicativo de mensagens é o mais poderoso vetor de ódio jamais inventado”, afirma Filloux. Uma característica fundamental do aplicativo é criar grupos, um importante componente do seu mecanismo de monetização. O alcance do WhatsApp é impulsionado exponencialmente pelo do Facebook também pelo plano de internet gratuita da rede social em 63 mercados em todo o mundo.
“Mark Zuckerberg detém todos os controles para corrigir a maioria das falhas do Facebook. Ao fazê-lo, ganharia um lugar especial na história corporativa. Dado seu comportamento passado e a ausência total de qualquer oposição dentro da gerência do Facebook, o caso parece resolvido”, lamenta Filloux.
Leia mais em:
https://mondaynote.com/do-no-harm-to-facebooks-business-model-b61c19efe9c0