O GLOBO – 28/08/2018

VICTOR CALCAGNO

A documentarista brasileira Emilia Mello, detida e deportada da Nicarágua quando se encaminhava para acompanhar um protesto contra o presidente Daniel Ortega na cidade de Granada, contou que ficou presa durante 30 horas antes de ser conduzida pelas autoridades até um voo para fora do país. Emilia, de 40 anos, afirmou que foi mantida algemada por autoridades nicaraguenses, sendo interrogada por cerca de sete horas e sem poder se comunicar com ninguém até que tivesse o processo de deportação iniciado.


Emilia, que tem cidadania brasileira e americana, estava no país havia um mês fazendo filmagens para um documentário sobre as manifestações que assolam o país contra o presidente Daniel Ortega — que vêm sendo violentamente reprimidas e que já deixaram mais de 300 mortos — contratada por uma produtora de fora. Ela contou que foi presa quando se dirigia para um protesto em Granada, sábado, com várias pessoas, entre elas profissionais de cinema que a acompanhavam na produção

Alegando que a documentarista trabalhava em solo nicaraguense, com o visto de turista, a imigração resolveu deportá-la. A cineasta, no entanto, contesta a afirmação, dizendo que o fato de estar sendo paga por produtores estrangeiros inviabilizava as acusações. Para ela, o motivo da deportação foi político.

— Eu e mais outras pessoas estávamos indo de Manágua para Granada, onde várias manifestações iriam ocorrer. Para despistar, escolhemos estradas pouco convencionais, mas ainda assim fomos pegos em uma blitz. Eles nos fizeram descer, pegaram todos nossos pertences, depois nos colocaram em um ônibus e, sem dizer nada, nos levaram para uma espécie de centro de detenção em Jinotepe. Lá, por volta do meio-dia (de sábado) fizeram vários processos de identificação e liberaram os outros, menos eu, às 18h, me levando para a imigração — contou ao GLOBO.

Segundo Emilia, o motivo alegado pelas autoridades para sua detenção é que seria “internacionalista”. Ela conta que foi interrogada por cinco pessoas diferentes das 19h até às 3h do domingo, quando deixaram-na dormir por algumas horas. Ainda segundo ela, foi algemada em alguns momentos, estando sempre acompanhada de policiais armados e em nenhum momento foi permitido que contatasse qualquer pessoa.

— Minha família só ficou sabendo onde eu estava quando ouviu o caso na imprensa. Pedi para falar com a embaixada brasileira, mas me disseram que “ninguém estava interessado no meu caso” – disse ela por telefone.

O processo de deportação só começou, de acordo com ela, às 13h do domingo, mais de 24 horas depois de ter sido detida. Ela saiu do país às 17h do mesmo dia, e segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, agora se encontra nos EUA —ela prefere não dizer exatamente onde, apenas que “não se encontra mais na Nicarágua, mas em um lugar seguro”.

‘PRECEDENTE PERIGOSO’, DIZ ASSOCIAÇÃO

A Associação Nicaraguense de Cinema (ANC) lamentou a detenção de Emilia, afirmando que ela “estava documentando a atividade, não sendo parte dela e sem nenhuma arma ou intenção de realizar delitos ou atos violentos”. De acordo com a ANC, a detenção dos documentaristas representa um risco para o futuro: “Isso estabelece um precedente muito perigoso para futuros cineastas que queiram tentar entrar no país para documentar o que se passa.”