As tarifas impostas desde março pelo governo de Donald Trump ao papel de imprensa produzido no Canadá elevou a taxas de dois dígitos os custos do principal insumo dos jornais dos Estados Unidos. O resultado, informa o The Washington Post, é uma espécie de quebra em câmera lenta de muitos jornais que, há muito tempo, já vinham prejudicados pela queda na receita de anúncios e audiência. O problema é grave uma vez que, mesmo em um mundo cada vez mais digital, os anúncios impressos e as assinaturas na versão em papel representam 75% ou mais da receita de um diário de tamanho médio.
Jornais de todo o país já estão sentindo os efeitos das tarifas. Pelo menos 12 veículos cortaram os dias de publicação. O The Tampa Bay Times, que ganhou prêmios Pulitzer em 2016 por reportagem local e investigativa, é um dos que está na lista dos afetados. Paul Tash, presidente e executivo-chefe do jornal, disse que o preço do papel por tonelada aumentou US$ 200 (R$ 760), criando um custo adicional em despesas de impressão de US$ 3,5 milhões (R$ 13,3 milhões) por ano. Em abril, o jornal cortou 50 posições, ou cerca de 7% de sua força de trabalho “Você poderia absorver [custos mais altos] se o resto do negócio estivesse indo bem”, disse Tash, “mas esse é um ambiente difícil para os jornais”.
A McClatchy Newspapers, editora do Miami Herald, do Kansas City Star e mais de duas dúzias de outros jornais regionais, demitiu 3,5% de sua força de trabalho, cerca de 140 pessoas. A demissão é resultado de várias causas, mas a diretora financeira da empresa, Elaine Lintecum, disse que os crescentes preços dos jornais foram um fator contribuinte.
O Pittsburgh Post-Gazette, por sua vez, cortou sua edição impressa de sete dias por semana para cinco, eliminando a publicação de terça e sábado. “Estamos enfatizando o digital porque o mercado está se tornando online, mas essas tarifas não estão nos ajudando”, disse editor do veículo, David Shribman. O próprio The Washington Post informou que seus custos com papel aumentaram 25% no último ano, mas garantiu ter absorvido a elevação sem tomar medidas de corte.
O The Gazette de Janesville (Wisconsin) informou que as tarifas sobre o papel aumentaram os custos de impressão anuais em US$ 740 mil (R$ 2,8 milhões). O jornal fez vários cortes de pessoal e está usando papel mais estreito, reduzindo o número de reportagens publicadas diariamente. “Estamos todos pagando um preço enorme”, disse Skip Bliss, editor da Gazette, sobre o efeito das tarifas no setor. “Temo que será uma época muito difícil. Acho que provavelmente haverá algumas baixas.”
Aumento de 30% nos custos em dois anos
Estudo realizado em nome de uma coalizão de gráficas, editoras e fornecedoras de papel projeta que o preço do papel-jornal nos EUA aumentará mais de 30% em um ou dois anos, e que os jornais e gráficas enfrentarão um aumento de custos de aproximadamente US$ 500 milhões (R$ 1,9 bilhão) pelas cinco fábricas de papel-jornal que restam nos EUA. O estudo foi apresentado à Comissão de Comércio Internacional dos EUA, um órgão federal independente que rege o setor e poderá derrubar ou modificar a decisão do Departamento do Comércio em uma decisão judicial esperada para o próximo mês.
As tarifas sobre o papel de imprensa fazem parte de várias medidas comerciais que Trump aplicou no esforço de seu governo para proteger os fabricantes norte-americanos, contendo o que chama de práticas comerciais injustas. As tarifas foram implementadas em janeiro, depois que o Departamento do Comércio se aliou à North Pacific Paper Co., uma fábrica de papel sediada no estado de Washington, em uma queixa alegando que os fabricantes canadenses vendiam papel-jornal por preços artificialmente baixos. Na semana passada, departamento emitiu tarifas finais de 3,38% a 16,88%, ligeiramente menores do que havia aplicado inicialmente.
Embora as tarifas pareçam se alinhar ao conhecido desprezo de Trump pela imprensa noticiosa, diz o The New York Times, a decisão do governo a favor da companhia que moveu a ação não foi incomum na luta comercial do presidente. O governo incentivou empresas a mover processos quando têm queixas contra similares estrangeiras, e o processo de “imposto compensatório” sob o qual o caso da North Pacific Paper foi iniciado se destina a defender as empresas norte-americanas das concorrentes estrangeiras.
Leia mais em: