O ESTADO DE S.PAULO – 01/09/2018

O governo da Nicarágua expulsou ontem a missão do Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU, dois dias depois da publicação de um contundente relatório sobre os abusos cometidos pelo regime do presidente Daniel Ortega contra manifestantes.

Ortega ordenou que a missão liderada por Guillermo Fernández Maldonado deixasse o país ainda ontem, segundo o Centro Nicaraguense de Direitos Humanos (CENIDH). “Esta insólita e inoportuna decisão reflete o ânimo de uma pessoa que se sente completamente perdida, que já não pode ocultar suas responsabilidades e seguir ocultando a verdade”, declarou a presidente da instituição, Vilma Núñez, referindo-se a Ortega.

Ela ressaltou que, com a expulsão da missão, Ortega procura evitar que o caso da Nicarágua seja analisado, no dia 5, no Conselho de Segurança da ONU. Ao mesmo tempo, é uma advertência de que haverá “mais repressão contra os nicaraguenses”.

A missão liderada por Fernández já tinha denunciado “obstáculos” do governo para realizar seu trabalho na Nicarágua. Na véspera, o Alto Comissário para os Direitos Humanos da ONU pediu à comunidade internacional que adote medidas urgentes para frear a crise na Nicarágua, que vive um “clima de medo” após meses de violenta repressão à oposição.

“A repressão e as represálias contra os manifestantes prosseguem na Nicarágua, enquanto o mundo olha para o outro lado”, afirmou o responsável pelo órgão, Zeid Ra’ad al-Hussein, em um comunicado divulgado por ocasião da publicação do relatório. “A violência e a impunidade dos últimos quatro meses demonstraram a fragilidade das instituições do país e do Estado de direito, o que criou um contexto de medo e desconfiança.”

O presidente nicaraguense rejeitou o relatório “por considerá-lo subjetivo, desleixado, com prejulgamentos e notoriamente parcial, redigido sob a influência de setores vinculados à oposição”. As manifestações da oposição na Nicarágua, governada desde 2006 pelo ex-guerrilheiro sandinista Daniel Ortega, começaram em abril contra a reforma da previdência proposta por ele – mais tarde abandonada. Os protestos foram ampliados como reação à repressão que deixou mais de 300 mortos.

Entre as violações dos direitos humanos documentadas, estão o “uso desproporcional da força pela polícia, que em alguns casos terminaram em execuções extrajudiciais, os desaparecimentos forçados, as torturas e os maus-tratos”. Dirigentes da opositora Coalizão Universitária asseguraram que 20 de seus integrantes foram detidos pela polícia e levados à prisão de Jinotepe. Com eles estava a documentarista brasileira Emilia Mello, que foi deportada no fim de semana.