O GLOBO – 01/09/2018

BRUNO GÓES E MATEUS COUTINHO

Deputado do PT e candidato a senador por Minas, Miguel Corrêa pagou viagens com recursos da Câmara para vender aplicativo de elogios fake. Ele nega a acusação.

Odeputado e candidato do PT ao Senado por Minas Gerais Miguel Corrêa, dono de empresas envolvidas no esquema de compra de elogios em redes sociais, usou dinheiro da Câmara para promover seus negócios no universo empresarial. O petista é dono da agência Follow, que administra os aplicativos Follow e Brasil Feliz de Novo, ferramentas que remuneravam internautas em troca de compartilhamento de conteúdos de candidatos do PT e do PR, uma violação à legislação eleitoral. Durante três meses, entre maio e julho, quando se preparava para atuar no mercado eleitoral, Corrêa e um de seus assessores visitaram 14 capitais com passagens aéreas compradas pela Câmara dos Deputados ao custo de R$ 42,6 mil aos cofres públicos. O GLOBO confirmou que o deputado tentou vender os produtos de sua empresa a candidatos em quatro viagens — Rio, São Luís, Curitiba e Fortaleza. As assessorias de Lindbergh Farias (PT), candidato à reeleição ao Senado pelo Rio, e Flávio Dino (PCdoB), candidato à reeleição ao governo do Maranhão, confirmaram que Miguel Corrêa esteve no Rio e em São Luís no período em que foram emitidas as passagens e que o parlamentar apresentou propostas do serviço, mas não houve negócio. Já a assessoria de Cida Borghetti (PP), candidata à reeleição ao governo do Paraná, afirmou que pessoas de sua campanha receberam o deputado, ouviram a proposta, mas o negócio também não foi adiante. Ciro Gomes (PDT), que concorre à Presidência, não lembrou a data da visita, mas também confirmou que Miguel Corrêa esteve em Fortaleza, sem fechar negócio. Segundo fontes ouvidas pelo GLOBO, Corrêa também esteve com o governador do Piauí, Wellington Dias, em Teresina, mas o petista não respondeu aos questionamentos sobre o caso. O assessor e parceiro de negócios do petista, Rodrigo Cardoso, dono da BeConnet, esteve em boa parte das viagens bancadas com dinheiro público. A agência de Cardoso faz parte da lista de empresas que teve o pedido de sigilo fiscal solicitado pelo Ministério Público Eleitoral de Minas na última quarta-feira. O deputado usou sua verba de gabinete para viajar a Teresina, Salvador, São Paulo, Natal, Vitória, Maceió, Belém, Goiânia, Porto Alegre, Florianópolis e Recife. Perguntado sobre que tipo de interesses dos contribuintes mineiros ele teria defendido nessas viagens a outros estados, o parlamentar não deu detalhes de sua agenda. —Não existe nada nas leis e nem na Constituição que me impeça de debater o que amo e o que gera empregos no país —afirmou Corrêa. Na quarta, O GLOBO revelou que registros internos da agência Follow mostram que o sistema irregular de campanha foi utilizado para propagar materiais de 14 candidatos a diferentes cargos nestas eleições. A lista inclui o nome do PT à Presidência, o ex-presidente Lula, preso em Curitiba desde abril, e os candidatos petistas a governador Fernando Pimentel (MG), Luiz Marinho (SP) e Marcia Tiburi (RJ). Até agora, ninguém admitiu ter pago pelo serviço.