O GLOBO – 05/09/2018
DECLAN WALSH E SULIMAN ALI ZWAY
Quando mais um confronto entre milícias tomou de assalto Trípoli, sacudindo o frágil governo líbio apoiado pelas Nações Unidas, alguns dos combatentes pegaram fuzis e lançadores de foguetes e foram para as ruas. Outros preferiram entrar no Facebook.
Enquanto os foguetes choviam sobre a cidade, uma batalha paralela se desenrolava na internet. Em suas páginas na rede social, grupos rivais se gabavam de feitos, faziam provocações e ameaças arrepiantes. Alguns desses “guerreiros do teclado” postavam notícias falsas ou comentários cheios de ódio. Outros publicavam táticas de batalha. Num fórum de discussão, uma usuária postou mapas e coordenadas para ajudar a direcionar as bombas de sua milícia contra uma base aérea.
“Do sinal de trânsito no estádio Wadi al-Rabi, são 18 quilômetros para a pista de decolagem, o que significa que ela pode ser atingida com artilharia de 130 milímetros”, escreveu a usuária (codinome Narjis Ly) no Facebook. “As coordenadas estão anexadas na foto abaixo.”
As redes sociais têm descomunal influência na Líbia, um país dividido por grupos armados que brigam por territórios e legitimidade. O Facebook, de longe a rede mais popular, não apenas espelha o caos —também o multiplica.
As milícias o usam para encontrar adversários, alguns dos quais acabam detidos, assassinados ou forçados ao exílio. Documentos forjados circulam livremente on-line, tentando minar a confiança das pessoas nas poucas instituições líbias que ainda sobrevivem ao caos, como o Banco Central.
O Facebook insiste que monitora assiduamente sua plataforma na Líbia. Diz estar desenvolvendo funções de inteligência artificial para prevenir a publicação de conteúdo proibido, e tem parcerias com grupos de direitos humanos para entender melhor a situação no país. Ainda assim, as atividades ilegais são abundantes.
EXÉRCITOS ELETRÔNICOS
O “New York Times” encontrou provas de que armas estavam sendo vendidas abertamente pela rede, embora as políticas do Facebook expressamente proíbam esse tipo de comércio. Traficantes de pessoas deixam claro que são bem-sucedidos ao ajudar imigrantes ilegais a chegar à Europa pelo mar, e usam suas páginas para fazer mais negócios. E praticamente todo grupo armado na Líbia tem uma página no Facebook.
“A guerra mais suja e perigosa está sendo travada nas mídias sociais”, disse Mahmund Shamman, ex-ministro da Informação, na semana passada. “Publicam-se informações desnorteantes… Todo mundo tem seu exército eletrônico, sem exceção. É a guerra mais mortal.” As declarações de Shamman foram feitas, naturalmente, no Facebook.
Cerca de 181 milhões de pessoas usam o Facebook todo mês no Norte da África e no Oriente Médio, diz a porta-voz da empresa americana. Para as milícias líbias, esse alcance o torna uma poderosa ferramenta de propaganda e repressão.