A Casa Branca estava despreparada para a tempestade criada a partir da divulgação de trechos do ainda inédito livro Fear: Trump in the White House (Medo: Trump na Casa Branca), do jornalista Bob Woodward —que ao lado Carl Bernstein revelou nas páginas do The Washington Post o escândalo que culminaria no fim do governo de Richard Nixon em 1974, o Watergate. No livro, o jornalista afirma que a gestão do presidente Donald Trump está em “colapso nervoso” e revela tentativas de seu gabinete de controlar um líder cuja raiva pode comprometer o governo.
Em meio à turbulência, conta o jornalista Jonathan Swan, do site Axios, os principais assessores do presidente Donald Trump obtiveram uma cópia e, agora, estão debruçados sobre ela, avaliando o estrago e discutindo estratégias de reação. A principal delas, como de hábito na atual gestão presidencial norte-americana, é a de desqualificar a obra, uma produção jornalística. Neste caso, entretanto, a tática da desmoralização tem tudo para derreter, isso porque a credibilidade do autor, Woodward, é inquestionável.
A primeira reação da Casa Branca foi a de atacar pessoalmente Woodward, classificando o conteúdo do livro de “histórias fabricadas”. A porta-voz da Casa Branca, Sarah Sanders, disse que a obra era “nada mais do que histórias inventadas, muitas de ex-funcionários descontentes, contadas para fazer o presidente parecer mal”. Trump também se manifestou. “É apenas outro livro ruim”, afirmou ele ao Daily Caller, uma publicação conservadora, afirmando que traz “coisas desagradáveis” e “inventadas” e que o autor tem “grandes problemas” de credibilidade. “Suas citações foram fraudes, um golpe no público, assim como outras histórias e declarações. Woodward é um agente dos democratas?” perguntou o presidente.
Mas Jonathan Swan, do site Axios, revelou que a tentativa de desconstruir a credibilidade de Woodward está justamente no fato de que a Casa Branca sabe que o jornalista é de extrema precisão no exercício de seu trabalho. “O problema é sua credibilidade. Eles [a equipe de Trump] sabem que não podem dar a ele [Woodward] o tratamento que deram a Michael Wolff [autor de “Fire and Fury”]. Ao contrário de Woodward, Wolff é notoriamente avesso à checagem básica de fatos. Woodward, por sua vez, tem centenas de horas de fitas e fez todos os esforços para conversar com todos os principais integrantes (os atuais e os que já saíram) da equipe do presidente dos Estados Unidos.
No livro, Woodward, de fato, relata um retrato perturbador da presidência Trump, com base em longas entrevistas com autoridades do governo e outras pessoas. O jornalista reforça que seu livro se baseia em centenas de horas de entrevistas com participantes e testemunhas em primeira mão, que foram conduzidas em off —isto é, a informação poderia ser usada, mas ele não revelaria quem a forneceu. Seu relato também se baseia em anotações de encontros, diários pessoais e documentos do governo.
Presidente age de forma prejudicial ao país
As revelações do livro de Woodward são reforçadas por outros relatos, que demonstram a deterioração nas relações da equipe que comanda a Casa Branca. Uma pessoa identificada como um alto funcionário da administração, informou o The Hill, criticou o presidente Trump em uma publicação anônima publicada pelo jornal The New York Times nesta quarta-feira (5). O funcionário afirmou que os assessores da presidência estão trabalhando para “impedir” as “piores inclinações” do presidente Trump.
A cúpula do grupo que comanda a administração do republicano, disse o funcionário, quer que “a administração tenha sucesso” e, para isso, luta contra os “impulsos equivocados” do presidente. “Acreditamos que nosso primeiro dever é com esse país, e o presidente continua a agir de maneira prejudicial à saúde da nossa república”, escreveu.
Trump que punição para o autor do livro
Em meio à crise, Donald Trump sugeriu que o Congresso mude as leis de difamação no país em uma mensagem publicada no Twitter, visando a possibilidade de punição a Woodward. “Não é uma vergonha que alguém possa escrever um artigo, ou um livro, totalmente inventar histórias e formar uma imagem da pessoa que é literalmente o oposto do fato, e sair impune disso sem retaliação, ou custo?”, tuitou Trump. “Não sei por que os políticos de Washington não mudam as leis de difamação”, acrescentou.
Trump alegou que Woodward escreveu o livro para provocar divisão no país e diz que o objetivo do autor é afetar as cruciais eleições de meio de mandato, que acontecem em novembro e renovarão toda a Câmara e um terço do Senado.
Tópicos-chave de “Medo: Trump na Casa Branca”
Woodward escreveu que ao final de janeiro, Trump sentou-se com John Dowd, à época um advogado que o aconselhava sobre as interações da Casa Branca com o procurador especial Robert Mueller. A ideia desta reunião era encenar uma entrevista simulada entre o presidente e Mueller, que estava disposto a questionar o presidente. Durante a sessão, o chefe de Estado mentiu repetidas vezes, se contradisse, insultou o ex-diretor do FBI James Comey e então explodiu em raiva, gritando por meia hora sobre a investigação ser uma enganação.
Dowd tentou demonstrar por que a simulação era motivo suficiente para que Trump não fosse questionado por Mueller, acrescentando que a carga de trabalho do presidente o impediria de conversar com o procurador. Além disso, o advogado entregou ao chefe de Estado uma carta endereçada a Mueller. No texto, argumentava que o presidente do país teria o direito de encerrar a investigação sobre a interferência russa. Trump adorou a ideia. No dia seguinte, ligou para Dowd. “Dormi como uma pedra”, disse, alegremente. “Eu amo aquela carta.”
Em março, pouco progresso havia sido alcançado com Mueller. No dia 5, o advogado se encontrou com o procurador especial e um de seus representantes e explicou por que estava tentando manter Trump longe deles. “Não vou sentar e deixá-lo parecer um idiota”, disse. Mais tarde no mesmo mês, Dowd disse a Trump por que ele deveria evitar depor. “É isso ou um macacão laranja”, pontuou, se referindo às vestes utilizadas por detentos.
O livro traz a primeira visão ampla do diálogo entre Mueller e os envolvidos na investigação sobre a Rússia. O jornalista relatou as indas e vindas na relação de Dowd com o escritório do procurador especial, assim como o tempo levado para a construção de uma relação entre as duas partes em meio ao calor das negociações sobre o possível depoimento do presidente.
Dowd oscilou entre credulidade e indignação. Em certo momento, depois de uma reunião especialmente difícil com Mueller, disse ao presidente que ele poderia estar certo sobre o procurador especial desde o início. Woodward escreveu que Dowd planejava dizer a Mueller que o presidente não tinha tempo para um inquérito ao mesmo tempo em que lidava com as responsabilidades do novo emprego.
“Sou muito sensível a isso”, teria dito o procurador em resposta. “Estou fazendo o melhor que posso.” Ainda assim, em determinado momento, Mueller disse a Dowd que poderia conseguir uma intimação para que Trump depusesse, o que o advogado interpretou como ameaça. “Não estou tentando te ameaçar. Estou apenas pensando nas possibilidades”, teria afirmado Mueller.
Woodward usou várias reuniões sobre Defesa para ilustrar o problema do presidente em compreender a política de sua própria administração, incluindo uma reunião, em julho de 2017, entre Trump, militares e membros de seu gabinete no Pentágono. “Quando vamos começar a ganhar algumas guerras?”, reclamou o presidente, enquanto os funcionários ao seu redor tentavam explicar o propósito da guerra no Afeganistão. “Nós temos esses gráficos. Quando vamos começar a ganhar algumas guerras? Por que você está enfiando isso em minha garganta?”
Trump atacou os generais e funcionários do gabinete presentes na sala, deixando o secretário de Estado, Rex Tillerson, exasperado. Ele é um “idiota”, teria dito Tillerson quando o presidente saiu da sala, usando um palavrão.
Em janeiro, em uma reunião do Conselho Nacional de Segurança, Trump perguntou por que os Estados Unidos estavam gastando tanto na Península Coreana. O secretário de Defesa, Jim Mattis, respondeu que o governo estava tentando prevenir a terceira guerra mundial. Depois que o presidente saiu da sala, escreveu Woodward, Mattis disse às pessoas que o chefe de Estado entendia o assunto como “um estudante de quinta ou sexta série”.
Deep Background
Woodward conduziu a maior parte das entrevistas na condição de “deep background”, o que significa que utilizou as informações de suas fontes sem citar de onde veio. Ao longo do livro, ele descreveu situações e eventos com detalhes exaustivos. Segundo o autor, foram utilizados dados vindos de “centenas de horas de entrevistas com participantes em primeira mão”. Apesar disso, o presidente se recusou a ser entrevistado, deixando a história para ser contada, em grande parte, por seus conselheiros.
O Washington Post publicou um áudio de uma ligação de 11 minutos entre Woodward e Trump, na qual o autor adverte o presidente de que seu livro seria crítico, e lamentou não poder ter contado com a visão do presidente no trabalho. O chefe de Estado, por sua vez, se demonstrou incrédulo por nunca ter se sentado para uma entrevista com o jornalista. Woodward se defendeu, dizendo que fez o pedido a pelo menos meia dúzia de pessoas próximas ao presidente, e a conversa nunca foi concedida.
Na ligação, Trump pareceu preocupado, repetindo que seria um livro “ruim” para sua imagem e afirmando que Woodward não entendia como seu governo vinha sendo bem-sucedido. “Então teremos um livro impreciso e isso é bem ruim”, disse o presidente. “Vai ser preciso, eu prometo”, respondeu Woodward. “Sim, O.K.”, disse Trump. “Bem, é (um fato) preciso que ninguém jamais fez um trabalho melhor do que eu estou fazendo como presidente.”
A renúncia de Kelly é uma especulação de longa data. Segundo o livro de Woodward, certa vez o chefe de gabinete chamou Trump de “idiota” e disse que a equipe da Casa Branca estava trabalhando em “crazytown” (cidade maluca). “É inútil tentar convencê-lo de qualquer coisa”, lamentou Kelly em uma reunião. “Ele saiu dos trilhos.” Trump chegou a suspeitar de Kelly, buscando soluções para evitá-lo. O presidente chegou a fazer ligações para membros do Congresso apenas quando Kelly não estava na sala.
Quando Cohn tentou renunciar por comentários que Trump fez depois de uma marcha nacionalista em Charlottesville, Virgínia, em 2017, Trump o menosprezou, mas o persuadiu a ficar. Depois da conversa, Kelly falou com Cohn para expressar sua consternação sobre como Cohn fora tratado pelo presidente. “Foi a maior demonstração de auto-controle que já vi”, disse Kelly. “Se fosse eu, eu teria pegado a carta de demissão e enfiado em sua bunda seis vezes.”
Mesmo com as críticas, Kelly ainda dividia parte da paranoia do presidente sobre a imprensa. “Eu sou a única coisa protegendo Trump da imprensa”, escreveu Woodward, citando Kelly em uma reunião. “A imprensa está tentando pegá-lo. Querem destruí-lo. E eu estou determinado a ficar no caminho, pegando as balas e flechas.”
Na terça-feira, Kelly negou, em comunicado, que tenha chamado Trump de “idiota”. O presidente, aparentemente despreocupado sobre o resto das questões envolvendo o chefe de gabinete no livro, postou o comunicado em seu Twitter no mesmo dia.
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https://www.dw.com/pt-br/em-livro-jornalista-descreve-colapso-nervoso-no-governo-trump/a-45356074