O GLOBO – 06/09/2018
‘Falcatrua!” Assim, um exasperado Donald Trump abriu sua sessão no Twittersere ferindo à forma como ele e seu governo são retratados no livro “Fear: Trump in the White House” (“Medo: Trump na Casa Branca”), do jornalista Bob Woodward, do “Washington Post”. Woodward ficou célebre por ter revelado, junto com Carl Bernstein, o escândalo Watergate, que levou à renúncia de Richard Nixon nos anos 1970.
A versão do próprio Trump sobre os episódios relatados por Woodward não consta do livro, já que, como revelou o “Post”, o presidente só falou com o repórter quando a obra já estava no prelo. Na conversa de 11 minutos, gravada e reproduzida no jornal, Trump alega que os inúmeros pedidos de entrevista feitos por Woodward nunca chegaram a ele. “O certo”, afirma na conversa, “é que ninguém fez um trabalho melhor do que eu como presidente”.
O livro, que será lançado no dia 11 ejá está na listados mais vendidos da Amazon, retrata a sede da Presidência como praticamente um hospício (uma definição dada pelo próprio chefe de Ga bine te John Kelly, que teria chamado o mandatário de “idiota”). Além disso, mostra Trump como propenso a explosões e tomadas de decisões por impulso, criando um clima de caos que Woodward diz ser equivalente a um “golpe de Estado administrativo” e a um “colapso nervoso” do Poder Executivo.
CONVERSA POR TELEFONE
Por exemplo, de acordo com Woodward, Trump disse ao secretário de Defesa, James Mattis, que queria o presidente sírio, Bashar al-Assad, assassinado, após ser informado de um ataque com armas químicas contra civis em 2017. Segundo o repórter, Mattis disse a Trump que iria “resolver” a questão, mas em vez disso desenvolveu um plano para um ataque aéreo limitado que não ameaçou Assad pessoalmente. Mattis teria dito a associados que Trump agira como “um estudante da quinta ou sexta série”.
Na série de tuítes, Trump chamou o livro de “um golpe contra o público”. “O livro já desacreditado de Woodward tem um monte de mentiras e fontes falsas. Ele diz que eu chamei (o secretário de Justiça) Jeff Sessions de ‘retardado’ e ‘sulista burro’. Eu não disse NENHUMA das duas coisas”, atacou o presidente.
Trump ainda pediu a mudança das leis contra a difamação: “É uma vergonha que alguém possa escrever um artigo ou livro, inventar histórias e formar a imagem de uma pessoa que seja o exato oposto da realidade.”
O presidente negou que tivesse ordenado a morte de Assad. Segundo a CNN, Trump lançou uma “caça às bruxas” pedindo ajuda a assessores leais para descobrir quem foram as fontes de Woodward.
Woodward tentou entrevistar Trump várias vezes, mas o presidente só lhe telefonou no início do mês passado, quando o livro já estava pronto. Na transcrição da conversa publicada pelo “Post”, Trump diz não ter sido informado sobre os pedidos de entrevista, mas depois admitiu que o senador Lindsey Graham lhe avisara que Woodward queria conversar. Também comentou que Woodward “sempre fora justo com ele”, mas no fim concluiu que o livro“não seria preciso”.
—Faço uma dura observação sobre o mundo, seu governo e o senhor — avisa o jornalista.
— Bem, então suponho que o livro vai ser negativo —responde Trump. —Você sabe, estou 50% acostumado a isso (risos). Tudo bem. Alguns livros são bons e outros, ruins. Parece que esse vai ser um dos ruins.
Woodward reafirma que tudo no livro é factual, e reitera que tentou entrevistá-lo.
—Mas você nunca me telefonou, Bob — atalhou Trump. —Se você tivesse me ligado diretamente… bem, muita gente tem medo…
Depois, Trump conclui que “então vamos ter um livro muito impreciso, e isso é muito ruim. Mas eu não o culpo inteiramente”, diz.
—Vai ser um livro preciso, eu prometo — diz Woodward.
—O queé preci somes moé que ninguém fez um trabalho melhor do que eu fiz como presidente —afirma Trump.