O ESTADO DE S.PAULO – 09/09/2018

HELIO GUROVITZ

Num momento em que Donald Trump promove uma guerra à imprensa profissional, o New York Times cometeu um erro injustificável, ao publicar o artigo anônimo em que um “alto funcionário” do governo se declara parte da “resistência interna” que tenta conter os desvarios de Trump.

É razoável afirmar que o caos impera na Casa Branca, que Trump seja errático ou inepto para a função. Mas ele foi eleito. Não cabe a nenhum “alto funcionário” questionar suas decisões fora dos mecanismos e instituições democráticas, nem descumprir suas ordens. É um precedente perigoso de insubordinação. Ao publicar o artigo, o Times fez o jogo do autor, interessado em proteger a própria reputação, mas incapaz de deixar o governo para denunciar Trump aos órgãos competentes.

Do ponto de vista jornalístico, o artigo não traz novidade em relação às revelações dos jornalistas Michael Wolff ou Bob Woodward (cujo livro sai neste mês). O diretor de redação, Dean Baquet, não foi informado pelo editor da página de opinião, James Bennet. Se tivesse, o certo seria ter publicado uma reportagem investigando até que ponto o governo é gerido por rebeldes. Mesmo com base em informantes anônimos, seria um artefato diferente do artigo, em que a visão do autor não é submetida a escrutínio.

O anonimato só se justificaria se a publicação pusesse vidas em risco. Neste caso, apenas alimenta as teorias conspiratórias de Trump sobre a imprensa, comprova a cumplicidade da página de opinião do Times com os interesses do autor e revela a covardia dele.