O GLOBO – 14/09/2018

A líder do governo de Mianmar, Aung San Suu Kyi, Prêmio Nobel da Paz em 1991 por sua resistência ao governo militar birmanês da época, defendeu ontem a condenação à prisão, no país, de dois jornalistas da agência Reuters acusados de “violar segredos de Estado”, no início do mês. Ela disse que os dois repórteres poderão recorrer da sentença de sete anos de prisão, e que seu julgamento não teve qualquer relação coma liberdade de expressão.

— Eles não foram presos porque são jornalistas, foram presos porque … o tribunal decidiuque eles violaram a Leide Segredos Oficiais — afirmou Suu Kyi durante o Fórum Econômico Mundial da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) no Vietnã.

Os jornalistas Wa Lone, de 32 anos, e Kyaw Soe Oo, de 28, foram condenados no dia 3 de setembro, num caso visto como um teste para o progresso democrático em Mianmar. Os repórteres investigavam um massacre de integrantes da etnia rohingya realizado pelo Exército nacional no estado de Rakhine. Ambos se declararam inocentes e afirmaram ao tribunal que a polícia plantara documentos para incriminá-los.

Sua prisão desencadeou grande indignação internacional, incluindo um pedido do vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, por sua libertação. A alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, a ex-presidente chilena Michelle Bachelet, também conclamou o governo birmanês a libertar os dois jornalistas. “A condenação de ambos se seguiu a um processo judicial que claramente violou padrões internacionais ”, disse Bach ele tem comunicado .“A sentença envia um recado a todos os jornalistas em Mianmar: od eque nãosem medo, masque precisam se autocensurar ou correr o risco de serem processados .”

Mas, para a líder birmanesa, a história é bem diferente.

— Me pergunto quantas pessoas realmente leram o resumo do julgamento, que não teve nenhuma relação coma liberdade de expressão— al e gou Suu Kyi, antes de reconhecer que o país poderia ter lidado melhor com a questão rohingya.

A perseguição à minoria muçulmana no país majoritariamente budista, que levou à morte de ao menos 6.700 pessoas eà fuga de mais de 700 mil, causou fortes críticas a Suu Kyi, que se manteve em silêncio por um longo período e depois minimizou as ações do Exército.