O ESTADO DE S.PAULO – 17/09/2018

The Economist chega ao 175º aniversário defendendo a ligação entre progresso econômico e democracia liberal

O liberalismo construiu o mundo moderno, mas o mundo moderno está se voltando contra ele. Europa e Estados Unidos estão sob ameaça de uma rebelião popular contra as elites liberais, que são vistas como aproveitadoras e incapazes, ou sem vontade de resolver os problemas das pessoas comuns. Em outros lugares, uma tendência de 25 anos rumo à liberdade e ao livre mercado entrou em reversão. Mesmo a China, que logo deve se tornar a maior economia do mundo, mostra que ditaduras podem prosperar.

The Economist considera isso profundamente preocupante. Fomos criados 175 anos atrás para defender o liberalismo – não o “progressismo” esquerdista dos câmpus universitários americanos ou o “ultraliberalismo” de direita, mas um compromisso universal com a dignidade individual, com o livre mercado, com o governo limitado e com a fé no progresso humano trazido pelo debate e pela reforma.

Nossos fundadores ficariam pasmados de ver como é a vida hoje, comparada com a pobreza e a miséria dos anos 1840. A expectativa de vida mundial subiu nos últimos 175 anos de menos de 30 para mais de 70 anos. A faixa da população vivendo abaixo do limite de pobreza extrema caiu de 80% para 8%, e o número absoluto caiu pela metade, mesmo com o total de pessoas vivendo nessa faixa aumentando de 100 milhões para mais de 6,5 bilhões.

O índice de alfabetização mais que quintuplicou, chegando a 80%. Os direitos civis e o império da lei estão incomparavelmente mais fortes do que há apenas algumas décadas. Em muitos países as pessoas estão agora livres para escolher como viver – e com quem.

Isso tudo não é só obra dos liberais, obviamente. Enquanto o fascismo, o comunismo e o autoritarismo fracassavam no decorrer dos séculos 19 e 20, as sociedades liberais prosperavam. E, de um modo ou outro, a liberal democracia veio para dominar o Ocidente e daqui espalhar-se pelo mundo.

Entretanto, as filosofias políticas não podem viver de suas glórias passadas: elas precisam também prometer um futuro melhor. E a liberal democracia enfrenta um desafio. Eleitores ocidentais começaram a duvidar de que o sistema funcione para eles, ou seja justo. Pesquisas feitas no ano passado indicaram que apenas 36% dos alemães, 24% dos canadenses e 9% dos franceses acham que a próxima geração vai viver melhor que a de seus pais. Apenas um terço dos americanos com mais de 35 anos considera fundamental viver numa democracia.

O índice dos americanos que receberiam bem um governo militar cresceu de 7% em 1995 para 18% no ano passado. De acordo com a ONG Freedom House, as liberdades civis e os direitos políticos declinaram nos últimos 12 anos – em 2017, 71 países perderam terreno e só 35 avançaram.

Contra a corrente, The Economist ainda acredita no poder da ideia liberal. Nos últimos seis meses, vínhamos comemorando nosso 175.º aniversário com artigos online, debates, podcasts e filmes sobre como responder às críticas ao liberalismo. Neste número publicamos um ensaio que é um manifesto para um renascimento liberal – um liberalismo para o povo.

Nosso ensaio mostra como o Estado pode trabalhar mais para o povo reformulando a taxação, o bem-estar social, a educação e a imigração. A economia deve ser libertada do crescente poder de monopólios e de restrições planejadas para deixar as pessoas fora das cidades mais prósperas. E exortamos o Ocidente a sustentar mais a ordem liberal aperfeiçoando seu poder militar e revigorando alianças. Todas essas políticas são designadas para lidar com o problema central do liberalismo. Em seu momento de triunfo após o colapso da União Soviética, ele perdeu de vista seus valores mais essenciais. É por eles que o renascimento liberal deve começar.

O liberalismo surgiu no fim do século 18 como resposta ao turbilhão desencadeado pela independência dos EUA, pela Revolução Francesa e pelas transformações da indústria e do comércio. Revolucionários insistem em que, para construir um novo mundo, primeiro é preciso destruir o que está a nossa frente. Conservadores, por seu lado, suspeitam de todas as pretensões revolucionárias à verdade universal. Eles querem preservar o que há de melhor na sociedade administrando as mudanças – geralmente sob a batuta da classe dominante ou de um líder autoritário que “sabe das coisas”.

Os verdadeiros liberais argumentam que as sociedades podem mudar gradualmente para melhor, em toda sua extensão. Eles diferem dos revolucionários porque rejeitam a ideia de que as pessoas devam ser obrigadas a aceitar crenças alheias. E diferem dos conservadores porque entendem que aristocracia e hierarquia (na verdade, todas as concentrações de poder) tendem a virar fontes de opressão.

O liberalismo começou, pois, com uma visão inquieta e agitada do mundo. No entanto, nas últimas décadas os liberais se acomodaram no poder. Como resultado, perderam o apetite por reformas. A elite governante liberal diz a si mesma que, por mérito, fez jus aos privilégios. A realidade não é tão cristalina. No mínimo, o espírito de competição da meritocracia criou uma extraordinária prosperidade e uma riqueza de novas ideias.

Em nome da eficiência e da liberdade econômica, governos abriram seus mercados à competição. Raça, gênero e sexualidade nunca tiveram tão pouca força frente ao avanço. A globalização tirou da pobreza centenas de milhões de pessoas em mercados emergentes.

Entretanto, liberais no governo geralmente conseguem se proteger dos incômodos da destruição criativa. Profissões confortáveis como a de advogado são protegidas por fortes regulações. Professores universitários gozam de proteção enquanto pregam as virtudes da sociedade aberta. Socorridos pelo dinheiro dos contribuintes, financistas são poupados do pior das crises financeiras. A globalização foi concebida para criar recursos suficientes para socorrer perdedores, mas poucos deles viram a cor desses recursos.

De vários modos, a meritocracia liberal é fechada e autossustentada. Um estudo recente concluiu que, entre 1999 e 2013, as mais prestigiadas universidades americanas admitiram mais estudantes do 1% das famílias mais ricas que de 50% das famílias mais pobres. As 50 maiores áreas urbanas contêm 7% da população mundial e produzem 40% da renda total. Mas restrições planejadas deixam muitos de fora delas, especialmente os jovens.

Liberais no governo se fecharam tanto na preservação de seu status quo que se esqueceram de como é o radicalismo. Lembrem-se de como, na campanha para a presidência americana, Hillary Clinton escondeu sua falta de grandes ideias com uma cortina de ideias pequenas.

Os candidatos à liderança do Partido Trabalhista britânico em 2015 perderam para Jeremy Corbyn não porque ele tenha um espantoso talento político, mas porque se mostraram acomodados. Tecnocratas liberais distanciam-se acintosamente do povo que supostamente devem ajudar. Isso cria duas classes: os que fazem e os que colhem, os que pensam e os que pensam por eles, os que fazem política e os que se beneficiam dela.

Fundações. Liberais se esqueceram de que sua ideia fundadora é o respeito cívico por todos. Nosso editorial do centenário, escrito em 1943, enquanto a guerra contra o fascismo se desenrolava, expôs esse conceito em dois princípios complementares.

O primeiro é a liberdade: “deixar as pessoas fazerem o que quiser não é apenas sábio e justo como também é lucrativo”. O segundo é o bem comum: “a sociedade humana pode ser uma associação do bem estar de todos”.

A meritocracia liberal de hoje se situa de modo desconfortável dentro dessa definição de liberdade. A classe dominante vive numa bolha. Eles vão para as mesmas universidades, casam entre si, vivem nas mesmas ruas e trabalham nos mesmos escritórios.

Longe do poder, a maioria das pessoas tem de se contentar apenas com a prosperidade material. Ainda assim, em meio à estagnação da produtividade e à austeridade fiscal que se seguiu à crise financeira de 2008, também essa promessa tem sido quebrada.

Existe uma razão para a corrosão da lealdade a partidos tradicionais. Os conservadores britânicos, talvez o partido político mais bem sucedido da história, agora arrecada mais dinheiro de testamentos de pessoas mortas que de presentes dos vivos.

Na primeira eleição da Alemanha reunificada, em 1990, os partidos tradicionais tiveram 80% dos votos. As últimas pesquisas dão a eles 45% dos votos, com 41,5% dos eleitores preferindo a extrema direita, a extrema esquerda e os Verdes.

As pessoas estão se retraindo em grupos de identidades definidos por raça, religião e sexualidade. Como resultado disso, o segundo princípio – o bem comum – fragmentou-se. Políticas de identidades são uma resposta válida para a discriminação, mas conforme as identidades se multiplicam, as políticas de cada grupo colidem com o interesse do restante da população.

Em vez de criar compromissos úteis, o debate torna-se um exercício de raiva tribal. Líderes da direita em particular exploram o sentimento de insegurança engendrado pela imigração como uma maneira de reunir apoio. E eles usam argumentos presunçosos da esquerda sobre o politicamente correto para alimentar o sentimento de cerco ao qual seus eleitores têm se prendido. O resultado é a polarização. Às vezes, leva à paralisia, às vezes à tirania da maioria. Em seu pior, fortalece autoritários de extrema direita.

Liberais estão perdendo argumentos também na geopolítica. O liberalismo se espalhou nos séculos 19 e 20 no esteio, primeiro da hegemonia naval britânica, e depois da ascensão econômica e militar dos Estados Unidos. Hoje, em contraste, o recuo da democracia liberal tem ocorrido enquanto a Rússia age como sabotador e a China impõe seu crescente poder global. E mesmo assim, em vez de defender o sistema de alianças e instituições liberais criados após a 2.ª Guerra, a América o negligencia – e, sob o presidente Donald Trump – o ataca.

Este impulso de retroceder tem como base uma concepção equivocada. Como argumenta o historiador Robert Kagan, os Estados Unidos não mudaram de isolacionismo no entreguerras para engajamento no pós-guerra para conter a União Soviética, como se infere com frequência. Em vez disso, ao perceber como o caos dos anos 20 e 30 criaram o fascismo e o bolchevismo, os homens de Estado do pós-guerra perceberam que um mundo sem líderes era uma ameaça. Nas palavras do secretário de Estado Dean Acheson, a América não podia mais sentar-se na praça com uma arma carregada esperando.

A isso se soma o fato de que o colapso da União Soviética em 1991 não fez repentinamente os Estados Unidos mais seguros. Se as ideias liberais não servirem de base para o mundo, os riscos geopolíticos tornarão o balanço de forças e as esferas de influência um conflito similar aos que atingiram a Europa no século 19, o que acabou culminando com os campos de batalha lamacentos de Flanders (na 1.ª Guerra).

Mesmo se a paz atual se mantiver, o liberalismo sofrerá enquanto temores crescentes de inimigos externos jogarem as pessoas nos braços de homens fortes e populistas.

Mudança. É o momento de uma reinvenção liberal. Os liberais precisam passar menos tempo desqualificando seus críticos como tolos e intolerantes e passar mais tempo consertando o que está errado. O verdadeiro espírito do liberalismo não é a autopreservação, mas a ruptura radical. The Economist foi fundada para fazer campanha pela rejeição das Leis de Grãos, que aumentaram os impostos de cereais na Grã-Bretanha vitoriana. Hoje parece quase uma cômica preocupação menor. Mas na década de 1840, 60% da renda operária era gasta com comida, um terço dela com pão. Fomos criados para tomar o lado dos pobres contra os nobres fazendeiros. Hoje, conforme essa mesma visão, os liberais precisam tomar o lado dos necessitados contra os mais ricos.

Os liberais precisam redescobrir sua crença na dignidade individual e na própria capacidade controlando seus próprios privilégios. Eles precisam deixar de ironizar o nacionalismo e invocá-lo para si e repaginá-lo com um orgulho cívico inclusivo. Em vez de arvorar-se no poder em ministérios centralizados e incontáveis tecnocracias, eles deviam devolvê-lo às províncias e municípios. Em vez de tratar a geopolítica como uma luta de soma zero entre grandes potências, os Estados Unidos precisam se valor da tríade reforçadora de seu poder militar, valores e aliados. Os melhores liberais sempre foram pragmáticos e adaptáveis. Antes da 1.ª Guerra, Theodore Rooselvelt enfrentou os barões que controlavam os grandes monopólios da América. Enquanto muitos liberais temiam o governo da plebe, eles abraçaram a democracia.

Depois da Grande Depressão, eles reconheceram que o governo tinha um papel limitado no manejo da economia. Em parte para ver o fascismo e o comunismo longe depois da 2.ª Guerra, os liberais montaram o Estado de Bem Estar Social.

Os liberais devem lidar com os desafios de hoje com vigor semelhante. Se eles prevalecerem, será porque suas ideias e habilidades para espalhar liberdade e prosperidade não encontraram concorrente.

Liberais devem aceitar críticas e dar boas vindas ao debate como fonte de um novo pensamento que irá reviver o movimento. Eles devem ser ousados e impacientes por reformas. Os mais jovens, especialmente, tem o mundo para reivindicar.

Quando The Economist foi fundada, há 175 anos, nosso primeiro editor, James Wilson, prometeu “uma disputa severa entre inteligência, que pressiona para frente, e uma ignorância tímida e indigna que obstrui o nosso progresso”. Nós renovamos nosso compromisso com essa luta. E convidamos os liberais do mundo a se juntar a nós.

TRADUZIDO POR ROBERTO MUNIZ E LUIZ RAATZ