O GLOBO – 08/09/2018

HENRIQUE GOMES BATISTA

A escalada da tensão política se elevou ainda mais ontem em Washington, com o presidente Donald Trump defendendo uma investigação federal contra o “New York Times”. A declaração do republicano é uma resposta à publicação de um artigo anônimo atribuído a um alto funcionário do governo que narrou uma “resistência” às ordens do republicano na Casa Branca.

O clima de acirramento dos ânimos ficou ainda mais claro com o ex-presidente Barack Obama fazendo um inédito ataque contra o seu sucessor, afirmando que a democracia está em risco com Trump no governo e conclamando os democratas a votarem nas eleições legislativas de novembro — que podem ser cruciais para um pedido de impeachment. — Eu diria que (o secretário de Justiça) Jeff Sessions deveria estar investigando que mé o autor daquele artigo porque eu realmente acredito ques ejaumt ema dese gurançan acional—disse Trump a repórteres em seu avião quando ia para um comício na Dakota do Norte. Questionado se pretende processar o jornal — que se vale da garantia constitucional para manter o sigilo sobre o autor do artigo —, Trump foi evasivo: —Nós vamos ver. Estou vendo isso agora—disse ele, que acusou o jornal de“traição” pela publicação do texto. Nele, o autor anônimo relatou que republicanos do governo agem para impedir “as piores inclinações” do presidente eque chegaram apensarem pedir seu afastamento por incapacidade, mas que desistiram por acreditar que isso geraria uma crise constitucional. Mais e mais autoridades seguiram o exemplo do vice-presidente Mike Pence — um dos “suspeitos” do texto — e negaram publicamente sua autoria. A embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Haley, publicou um forte artigo no “Washington Post”, em que escreveu: “Quando desafio o presidente, faço isso diretamente. Meu colega anônimo deveria fazer o mesmo.”

A fragilidade de Trump, que veio à tona nesta semana com o livro do jornalista Bob Woodward (“Fear: Trump in the Whit eH ouse ”) mostrando diversos problemas dentro da Casa Branca, foi coroada com uma volta de Barack Obama aos palanques. Para defender os democratas nas eleições legislativas de novembro, o expresidente abandonou a tradicional discrição de ex-presidentes e atacou diretamente seu sucessor, acusando-o de “capitalizar o ressentimento que os políticos têm alimentado há anos”. Obama o acusou ainda de tolerar supremacistas e de “politizar as instituições”.

—É uma visão que diz que a proteção de nossos poderes e daqueles que nos apoiam é tudo o que importa, mesmo quando isso fere o país —disse Obama, fazendo uma referência ao texto anônimo: — A ideia de que tudo vai ficar bem porque há pessoas na Casa Branca que estão secretamente desobedecendo as ordens do presidente não é suficiente. Ao afirmar que “nossa democracia depende do seu voto”, Obama deu início a uma série de comícios em apoio aos candidatos democratas que concorrerão em novembro, quando serão renovadas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e um terço do Senado. Especialistas afirmam que é muito provável que a oposição garanta ao menos o controle da Câmara, o que poderia abrir um caminho para um eventual pedido de impeachment do presidente, que ainda pode se complicar com as investigações da trama russa e de fraudes eleitorais, que estão na mira do procurador especial Robert Mueller.

EX-ASSESSOR CONDENADO

Ontem, em mais um capítulo deste caso, o ex-assessor de política externa da campanha de Trump, GeorgePa pado poulos, foi condenado a 14 dias de prisão, por mentira o FBI sobre seus contatos coma Rússia. Primeira vítima direta de Mueller, ele está colaborando com as investigações. Esse clima de convulsão chegou ao Senado, que ontem realizou o último dia de audiência com o conservador Brett Kavanaugh, indicado por Trump para a Suprema Corte. Todo o processo foi confuso, desde a marcação da audiência, quando Trump ordenou o bloqueio ao acesso de cem mil páginas do trabalho de Kavanaugh como assessor de George W. Bush. Um senador democrata, Cory Booker —indicado como um dos possíveis presidenciáveis em 2020—, chegou a desafiara lei e divulgar e-mails secretos com as posições do indicado. Manifestantes protestaram no Senado e acabaram presos. Sobreviventes da chacina a tiros de Parkland, na Flórida, pediram paranã o colocar mais um defensor das armas na Suprema Corte —e Kavanaugh se recusou a apertar as mãos dos pais de um adolescente morto no episódio. Apesar disso, republicanos saíram confiantes de que seu nome será aprovado nas próximas semanas, o que dará uma sólida maioria conservadora no principal tribunal do país.