A forma atabalhoada e raivosa com a qual o presidente Donald Trump e parte de sua equipe reagiram à tempestade causada na Casa Branca pelas revelações de trechos do livro Fear: Trump in the White House (Medo: Trump na Casa Branca), do jornalista Bob Woodward, é mais uma prova de como a atual gestão presidencial dos Estados Unidos atua no sentido contrário à verdade, ameaçando a livre expressão e a democracia. “Nunca antes naquele país, nem mesmo nos tempos em que o ex-macartista Richard Nixon ocupou a Casa Branca, o presidente e seus assessores foram tão ousados no ataque ao senso comum”, avalia do jornalista Carlos Alves Müller, Doutor em Estudos Comparados em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília (UNB), em artigo no site do Instituto Palavra Aberta.

A principal arma de Trump e seus assessores em reação ao livro de Woodward é repetir, agora de forma mais personalizada, o mantra de que jornalismo independente é mentiroso, e por isso não deve ser levado a sério. Os fatos, porém, mostram, que os adeptos da falsidade estão na realidade dentro da Casa Branca. De acordo com o monitoramento do jornal The Washington Post publicado em 31 de julho, Trump fez 4.229 afirmações falsas ou enganosas em 558 dias – 7,58 por dia, inclusive domingos e feriados, lembra Müller. Além disso, antes mesmo do livro de Woodward, há um gigantesco acúmulo de fatos que mostram, no mínimo, uma perigosa falta de estabilidade do presidente, o que resulta em efeito dominó em sua equipe. “Para muitos analistas, inclusive grande número de (psic)analistas, o caso do presidente dos EUA é patológico. Para outros, o problema é diferente, uma questão de estratégia política”.

O jornalista destaca que, menos de um mês depois da divulgação dos números do “Post”, em 28 de agosto Trump voltou sua artilharia no Twitter, agora contra o Google, afirmando que os resultados do buscador são “manipulados”. No melhor estilo paranoico, escreve Müller, o presidente afirmou que numa busca por “Trump News” encontrou apenas notícias da “Fake Media” como se refere a alguns dos principais veículos jornalísticos do país (CNN, Washington Post, The New York Times, etc), enquanto a cobertura da “mídia justa” – a que o apoia – seria ocultada. “Em outras palavras, eles têm armado para mim… Esta é uma situação muito séria. Será tratada!”, ameaçou com ponto de exclamação.

A instabilidade e a recorrência às inverdades começaram cedo no governo Trump, logo depois da posse, em comentário feito por Kellyanne Conway, conselheira do presidente. Ao ser perguntada por que o secretário de imprensa Sean Spicer, em sua primeira aparição no cargo, fora instruído a afirmar falsamente que o público que assistiu ao desfile presidencial havia sido “maior que nunca” (o que as fotos e vídeos reproduzidos por jornais e televisões desmentiam), ela respondeu: ele estava apresentando “fatos alternativos”.

Expressão amorfa

Diante dos estragos causados pelo livro de Woodward, Trump segue a mesma cartilha usada até aqui contra a imprensa, mas acaba esbarrando na alta credibilidade do jornalista que, ao lado Carl Bernstein, revelou no The Washington Post o escândalo que culminaria no fim do governo de Richard Nixon em 1974, o Watergate. Trump tropeça também no cenário que ele mesmo criou ao enfraquecer, por meio de sua feroz oratória (no cargo mais importante dos Estados Unidos), a importância da verdade.

Em seu artigo, Müller enfatiza que Trump usa a expressão “fake news” para desqualificar as notícias que lhe são desfavoráveis com quase tanta frequência quanto produz as suas. “Como comentou Patrick Murray, diretor do Instituto de pesquisa de Monmouth, ouvido por Margaret Sullivan, colunista de mídia do Washington Post, a expressão se tornou amorfa”. De fato, diz Müller, Trump tem sido muito bem-sucedido em seu empenho de minar a confiança no jornalismo. Em consequência, segundo Sullivan, agora “notícia falsa” pode significar quase qualquer coisa, o que significa dizer quase nada.

Há quem veja a questão com resignação, afirma Müller, também consultor da Associação Nacional de Jornais (ANJ). “Seria uma decorrência inevitável da era em que vivemos – a era da “pós-verdade” – expressão apontada pelos Oxford Dictionaries como a palavra internacional de 2016”. Isso ocorreu, ressalta o jornalista, depois que seu uso aumentou cerca de 2.000% em relação ao ano anterior, no qual transcorreram as campanhas eleitorais dos EUA e do plebiscito pela saída da Grã Bretanha da União Europeia (Brexit). Segundo os responsáveis pelos dicionários, “pós-verdade” é um adjetivo “relacionado a ou denotando circunstâncias em que os fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que apelos à emoção e à crença pessoal”.

Ameaça ao valor da verdade

O que o especialista Patrick Murray ouvido por Sullivan aponta é um problema da maior gravidade, enfatiza Müller. A razão disso, como observou Manuel Arias Maldonado, professor titular de Ciência Política da Universidade de Málaga, em artigo no jornal El País (29/03/17), é que estamos assistindo a uma perda do valor persuasivo dos fatos no debate público, de maneira que já não seriam determinantes para a configuração das crenças privadas. A “pós-verdade”, diz ele, indica que a própria noção de verdade, e mais concretamente de verdade pública, teria deixado de ter sentido.

A expressão “pós-verdade” pode ser recente, mas não o que ela significa, afirma o jornalista, suas consequências e o debate filosófico subjacente. O ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF) e ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não domina a questão tecnológica, mas ao conduzir os preparativos do Poder Judiciário para a atual campanha eleitoral tinha clareza quanto ao que está em jogo. Referindo-se à “pós-verdade” durante o recente 28º Congresso Brasileiro de Radiodifusão, realizado em Brasília, afirmou categoricamente: “Depois da verdade não vem outra verdade, vem a mentira”.

O caso dos ataques de Trump ao trabalho jornalístico de Woodward, que no livro afirma que a gestão do presidente Trump está em “colapso nervoso” e revela tentativas de seu gabinete de controlar um líder cuja raiva pode comprometer o governo, esquenta mais ainda o debate sobre a verdade e a liberdade de imprensa. Atualmente, diz Müller, muitos jornalistas e mesmo professores de jornalismo, seduzidos por um pós-modernismo mal digerido, adotam, fora de contexto, ideias de pensadores como Foucault, Rorty e Vatimo que, como aponta Maldonado, sustentam que “a verdade depende quase sempre do ponto de vista de quem a formula e deriva de um processo de construção — ou imposição — social mais que de sua correspondência com uma realidade exterior ao ser humano”. Outros vão mais longe no tempo e no equívoco e adotam, sem refletir, um Nietzsche ainda imaturo segundo o qual não existiria nenhuma verdade porque ela não é mais do que uma ilusão. “Isso significa, logicamente, que a própria afirmação do filósofo não passa também de ilusão”.

Em meio ao cenário construído por Trump, em tese o homem mais poderoso do planeta, e aos desafios do jornalismo moderno, Müller sugere observar o que escreveu Hanna Arendt em sua reflexão sobre “Verdade e Política”. No ensaio, escrito após a celeuma causada por seu relato sobre “Eichmann em Jerusalém”, ela argumenta que “as verdades de maior importância política” são factuais. “Em tempos de Trump, valha-nos Hanna Arendt!”

“O contrário de uma asserção racionalmente verdadeira é ou erro e ignorância, como nas Ciências, ou ilusão e opinião, como na Filosofia. A falsidade deliberada, a mentira cabal, somente entra em cena no domínio das afirmações factuais; e parece significativo, e um tanto estranho, que, no longo debate acerca desse antagonismo de verdade e política, desde Platão até Hobbes, ninguém, aparentemente, tenha jamais acreditado em que a mentira organizada, tal como a conhecemos hoje em dia, pudesse ser uma arma adequada contra a verdade”.

Hanna Arendt