O ex-chefe de segurança do Facebook, Alex Stamos, alertou nesta semana que os Estados Unidos não têm mais como impedir a interferência estrangeira, em especial nas redes sociais, nas eleições de 6 de novembro deste ano, chamadas eleições meio-termo. Stamos, que deixou a rede social comandada por Mark Zuckerberg no começo deste mês, sustenta que, além da forma como funcionam as mídias interativas, um dos motivos para tanta fragilidade está na inação governamental. “De certa forma, os Estados Unidos transmitiram ao mundo que não levam essas questões a sério e que qualquer criminoso de guerra da informação contra o Ocidente receberá, no máximo, um tapa no pulso”, escreveu Stamos no site Lawfare, especializado em segurança. “Embora esse fracasso tenha deixado os Estados Unidos despreparados para proteger as eleições de 2018, ainda há uma chance de defender a democracia americana em 2020”, salientou.
A vulnerabilidade neste momento, argumenta Stamos, tem por base o fato de que, embora a CIA (Central Intelligence Agency), o FBI (Federal Bureau of Investigation) e a NSA (National Security Agency) concordem que a Rússia interferiu na eleição presidencial de 2016, a falta de uma resposta consistente do governo norte-americano significa que não há impedimento para que isso se repita agora, por parte da Rússia ou de outros países. Além disso, deixar que as empresas privadas busquem identificar agentes estrangeiros usando suas próprias plataformas, como está sendo feito, é insuficiente, insiste o especialista, que deixou o Facebook aparentemente insatisfeito com a falta de transparência com a qual a rede social lida com a privacidade dos usuários.
Stamos destacou que as plataformas de mídia social, incluindo seu antigo empregador, cometeram sérios erros em 2016. “As empresas de tecnologia ainda usavam uma definição de guerra cibernética focada em técnicas tradicionais de hacking – como spear phishing ou disseminação de malware – e não estavam preparadas para detectar e mitigar as campanhas de propaganda que foram posteriormente encontradas e interrompidas”. Ele ressaltou que, mesmo que Facebook e Google estejam agora promovendo mudanças na tentativa de garantir melhor proteção, “o restante da massiva indústria da publicidade online” fez poucos avanços.
Agência de segurança cibernética
Para a proteção das eleições de 2020, Stamos defendeu medidas que envolvem o governo norte-americano, as relações diplomáticas com outros países e o Congresso. Neste último caso, o especialista disse que os legisladores precisam necessariamente alterar a chamada Lei dos Anúncios Honestos (Honest Ads Act, H.R.4077). No entendimento dele, é estabelecer padrões técnicos para arquivos de propaganda e diretrizes para o uso de bancos de dados de eleitores por campanhas e partidos políticos.
Stamos afirmou ainda que os Estados Unidos precisam firmar parcerias com seus aliados na criação de uma agência de segurança cibernética com o objetivo de coordenar a proteção eleitoral. Sugeriu também que os estados norte-americanos criem equipes de segurança eleitoral para proteger os sistemas de votação locais contra ameaças de hackers. “Como líder de segurança no meu antigo cargo no Facebook, minha responsabilidade pessoal pelos fracassos de 2016 continua a pesar sobre mim, e espero que eu possa ajudar a elucidar e ampliar algumas lições difíceis de aprender, para que os mesmos erros não sejam cometidos novamente e de novo”, escreveu Stamos.
O especialista ressaltou que, mesmo com a garantia desses avanços, o papel da população dos Estados Unidos é decisivo. “Os americanos devem exigir que futuros ataques sejam rapidamente investigados, que os fatos relevantes sejam divulgados publicamente bem antes de uma eleição e que as poderosas armas financeiras e cibernéticas disponíveis sejam imediatamente utilizadas para punir os responsáveis. Isso pode parecer muito difícil para o presidente Trump, mas os esforços recentes de integrantes de sua administração demonstram que a pressão pública poderia encorajar uma resposta significativa, apesar do atual ocupante do Salão Oval”.
Stamos enfatizou que os ataques contra o discurso político dos Estados Unidos visam minar a confiança dos cidadãos, criar o caos e comprometer a legitimidade do governo americano – mesmo que, atualmente, pareçam favorecer os republicanos, o objetivo da guerra cibernética é comprometer toda a política dos Estados Unidos. “Com a vontade política e a cooperação certas, os Estados Unidos podem demonstrar que 2016 foi uma aberração e que a esfera política dos país não se tornará o local de eleição para as mais recentes inovações na guerra global de informação. O mundo – incluindo os inimigos da América – está assistindo”.
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