O GLOBO – 16/08/2018
Mais de 300 jornais americanos decidiram marcar posição, por meio de editoriais, contra os ataques constantes do presidente Donald Trump aos veículos de imprensa do país. Sem citar o presidente, o “New York Times” destacou o valor da imprensa livre dos EUA.
O“New York Times” anunciou na tarde de ontem que se juntou ao “Boston Globe” e a outros mais de 300 diários num esforço coordenado de jornais americanos para publicar editoriais contra os repetidos ataques do presidente Donald Trump aos veículos de imprensa do país.
“Nosso editor marcou aposição do jornal quanto a essa questão e, num momento em que jornais porto doo país estãosob pressão comercial e política, acreditamos queéimport antemostrar solidariedade ”, afirmou o responsável pelo editorial do“Times ”, James Bennet, citando o publisher do jornal, A.G.Sulzberger, queno mês passado se reuniu com Trump na Casa Branca.
Na ocasião, Trump afirmou no Twitter que discutira “a vasta quantidade de notícias falsas apresentadas pela mídia” com Sulzberger, que por sua vez, emitiu uma nota afirmando que considerava a retórica do presidente “não apenas divisiva, mas também cada vez mais perigosa”.
Sem mencionar o nome de T rum puma única vez, o editorial do“Times”lemb raque essa nãoéa primeira vez que um ocupante da Casa Branca se sente incomodado coma vigilância da imprensa, masque hoje “alguns dos ataques mais prejudiciais são provenientes de autoridades do governo”.
Já o texano “Dallas Morning News” afirma que “na nossa era moderna, nenhum presidente desafiou publicamente a legitimidade das principais organizações de imprensa como o atual ocupante do Salão Oval”. “A grande diferença é que, em vez de questionar uma reportagem ou uma série, sua intenção parece ser minar a credibilidade de toda a imprensa. Dessa forma, aqueles que ocupam os principais cargos ganham a capacidade de governar sem a força do escrutínio público.”
A iniciativa de coordenar os editoriais veio da vice-editora do“Globe”,Marjo ri ePritchard, no início do mês, depo isque o presidente intensificou osa taquesà mídia, classificando os veículos de imprensa como “inimigos do povo”. Entre os principais jornais que se uniram à iniciativa estão “Chicago Sun-Times”, “Houston Chronicle”e “Miami Herald”, além de diversos diários hispânicos de Nova York.
ANALISTA PREVÊ REAÇÃO
“Os responsáveis pelas notícias falsas detestam que eu diga que eles são inimigos do povo, porque sabem que isso é VERDADE”, afirmou Trump no Twitter dias antes do anúncio de Pritchard. “São muito perigosos e doentios!”, tuitou.
Para Jack Shafer, analista do site “Politico”, o esforço “sairá pela culatra” e dará mais munição ao presidente .“Isso dará a Trump uma prova concreta da existência de uma imprensa nacional convocada unicamente para se opor a ele”, escreveu. “Ele colherá material fresco o suficiente para ser usado por pelo menos um mês ”.
Shafer chegou até mesmo a antecipara respostado presidente que, na sua opinião, dirá algo semelhante a: “Ao conspirar contra mim, a falsa mídia provou, de uma vez por todas, que está alinhada com os democratas e se revelou minha verdadeira oposição política.”
No “Breitbart”, site de extrema-direita que apoiou abertamente a campanha de Trump, os editoriais coordenados foram descritos pelo colunista John Nolte como “uma ação liderada pelo ‘Boston Globe’, de extrema-esquerda, que visa enganar os leitores e fazê-los acreditar que críticas à imprensa são ‘inaceitáveis’, e ‘um ataque à Primeira Emenda (que garante a liberdade de imprensa no país)”. Steve Bannon, ex-presidente-executivo do “Breitbart”, foi chefe da campanha eleitoral de Trump e estrategista-chefe da Casa Branca nos primeiros meses de mandato do republicano.