O GLOBO – 16/09/2018
HENRIQUE GOMES BATISTA
Um dos primeiros cabos eleitorais de Ron DeSantis para manter o governo da importante Flórida nas mãos dos republicanos foi Donald Trump. Mas o político passou os últimos dias tentando distanciar-se do presidente — que colocou em dúvida o número de 3 mil mortos no furacão Maria, em Porto Rico, no ano passado. O risco de perder o apoio dos mais de um milhão de porto-riquenhos que vivem no estado, que também é marcado por tempestades, pesa para De Santis mais que a lealdade a Trump. A disputa na Flórida, que em 2016 preferiu Trump a Hillary Cl in ton,é um exemplo do processo de isolamento que o presidente tem vivido. A 50 dias das eleições legislativas e para os governos de muitos estados — que cada vez mais se assemelham a um referendo sobre o Trump —, republicanos temem que suas candidaturas sofram coma rejeição ao presidente. Neste cenário, nem mesmo aboa situação econômica do país parece torná-lo um bom cabo eleitoral. — Neste momento, Trump é “tóxico” em certos estados e distritos, onde a disputa com os democratas é mais apertada e onde os votos dos moderados e dos independentes são mais importantes — disse ao GLOBO Clifford Young, diretor para os EUA do instituto de pesquisas Ipsos. —Em locais solidamente conservadores, o apoio de Trump pesa, mas sua rejeição tem crescido nacionalmente.
Esse temor de contaminação veio depois de o advogado de Trump confessar crime eleitoral, afirmando ter agido a mando do presidente; foi ampliado com o livro de Bob Woodward, “Medo: Trump na Casa Branca”, que mostra assessores chegando a esconder papéis com ordens estapafúrdias do republicano; e culminou com um artigo anônimo de um alto funcionário do governo no “New York Times” revelando uma “resistência interna” ao mandatário. E uma prova deste isolamento foi que poucos correligionários saíram em defesa do republicano quando ele foi alvo de duros ataques do antecessor, Barack Obama. Além disso, de acordo com pesquisa da CNN, o índice de aprovação do presidente caiu de 44% para 37%, entre agosto e setembro.
—O livro de Woodward teve um sério impacto na Presidência. Os índices de aprovação caíram alguns pontos. Não chegou ajogarTrump em uma zona de perigo, mas fez os números diminuírem na maioria das pesquisas importantes. Ao mesmo tempo, o presidente perdeu o controle de sua história. O quadro econômico continua melhorando, mas ele não consegue sair da confusão.Há a aparência de uma Casa Branca em desordem— afirmou John Zogby, fundador da Zogby Analytics. — A liderança do Partido Republicano está reconhecendo que pode perdera Câmara dos Representantes e, pela primeira vez, a maioria no Senado. Normalmente, o partido do governo sofre perdas nas eleições legislativas de meio de mandato presidencial — que renova todas as 435 cadeiras da Câmara e um terço do Senado—, mas neste anoa situação tende a ser pior. Os republicanos estão prevendo derrotas em locais tradicionalmente conservadores, como Kansas e Montana. E isso tende a criar problemas extras para Trump: com as denúncias criminais cada vez mais fortes de seu círculo de decisão na campanha de 2016, perder o controle do Legislativo pode significara diferença em um eventual processo de impeachment contra o presidente, que tende a ver seu governo afetado pelos problemas. — Parece verdadeiro que o presidente tem menos pesso- as nas quais ele pode confiar, há indicações de que há um número de indivíduos no próprio gabinete trabalhando contra ele —disse Josh Pasek, da Universidade do Michigan, que afirma, contudo, que é cedo para determinar como ficará o Congresso, pois isso depende do entusiasmo dos democratas em votar, da participação dos republicanos e do posicionamento dos eleitores independentes. No campo adversário, além da volta de Obama aos palanques, o fim do ciclo das primárias revelou um padrão peculiar: a oposição a Trump serve de combustível para o ativismo de esquerda —que conseguiu emplacar alguns candidatos emblemáticos —, mas em um Partido Democrata com um número maior de candidatos moderados, numa estratégia que pode atrair eleitores independentes. Em Nova York, a atriz e ativista Cynthia Nixon perdeu a indicação para a disputa ao governo do estado para Andrew Cuomo, que tentará a reeleição. Há, também, recorde de ex-militares conquistando vagas nas primárias da legenda. —Um bom número de candidatos democratas tem histórico de servir nas Forças Armadas o una segurança nacional. Tais experiências poderiam ajudá-losa mitigara taquesre publicanos focados em questões de segurança, como imigração e defesa. Mas, talvez, mais importantes e jaque esses candidatos frequentemente tenham narrativas convincentes para compartilhar com os eleitores eque possam oferecer um apelo mais apartidário. Pelo menos, essaéaespe rança dos estrategistas —afirmou ao GLOBO Geoffrey Skelley, editor do projeto Sabato’s Crystal Ball, do Centro de Política da Universidade da Virgínia.
“Neste momento, Trump é “tóxico” em certos estados e distritos, onde a disputa com os democratas é mais _ apertada’’
Clifford Young, diretor para os EUA do instituto de pesquisas Ipsos
NARRATIVA DEMOCRATA
Mas os democratas precisam, segundo os especialistas, “criar uma narrativa”: o grande risco do partido é não apresentar uma agenda que interesse aos eleitores. —Existe um dilema: por um lado, há a preocupação de que, se os democratas forem à esquerda demais, corram o risco de perder os eleitores moderados e indecisos, especialmente nos distritos que votaram em Trump em 2016. Por outro lado, os eleitores que mais mobilizam as bases são os progressistas, muitos dos quais são jovens — explica David Schultz, professor d aH a ml in e University, em Minnesota.
“O Partido Republicano está reconhecendo que pode perder a Câmara dos Representantes e a maioria no Senado” _
John Zogby, fundador da Zogby Analytics
“Existe um dilema: se os democratas forem à esquerda demais, correm o risco de perder os eleitores moderados” _
David Schultz, professor da Hamline University