O sociólogo Zeynep Tufekci chamou a rede social de vídeos do Google, o YouTube, de “um dos mais poderosos instrumentos de radicalização do século 21”. Recente pesquisa do instituto Data & Society reforça a tese. O YouTube é aparentemente um serviço de vídeos inofensivo, diz o jornalista especializado em tecnologia Mathew Ingram, da Universidade Columbia, mas na medida em que o usuário passa mais tempo na rede social começa a ver links estranhos ou perturbadores, de conteúdo radical e teorias da conspiração. Isso não é uma coincidência, diz o estudo, mas sim uma tentativa deliberada de radicalizar os usuários, puxando-os para um vórtice de conteúdo extremista.

Para elaborar o levantamento, a pesquisadora Rebecca Lewis examinou 65 influenciadores políticos em 81 canais do YouTube e identificou o que ela chama de Rede de Influência Alternativa (AIN na sigla em inglês). A AIN usa as mesmas técnicas que as marcas anunciantes e outros influenciadores de mídia social para elevar o número de seguidores e obter tráfego. No entanto, conforme relato de Ingram, a rede faz isso com o ibjetivo de multiplicar entre usuários uma ideologia de direita. Esses especialistas da mídia e celebridades da Internet na rede, que incluem o professor canadense Jordan Peterson e o supremacista branco Richard Spencer, afirma o estudo, “usam o YouTube para promover uma série de posições políticas, da versão convencional do libertarianismo e conservadorismo até o nacionalismo branco”.

Assim como os usuários do Instagram podem comercializar uma nova marca postando fotos e vídeos de si mesmos e marcando outras pessoas para ampliar seu alcance, a ação dos influenciadores radicais de direita no YouTube, continua a pesquisa, “facilita a exposição progressiva” dos integrantes dos seus grupos e eleva a chance de o público “confiar em posições políticas cada vez mais extremistas”. E o Google, é claro, salienta Ingram, “monetiza com alegria todo esse engajamento e tráfego com anúncios”.

O modelo usado pelos radicais está amparado na lógica de recomendação do algoritmo do YouTube. “Para muitos usuários mais jovens, essa é a nova TV: assistir a vídeos após vídeos no YouTube. E o algoritmo do site é frequentemente utilizado por trolls de direita para obter suas fraudes ou notícias falsas no topo da lista recomendada, um exemplo do que o Oxford Internet Institute chamou de ‘propaganda computacional’”, alerta Ingram.

O Google, afirma o jornalista da Universidade Columbia, disse estar preocupado com a desinformação no YouTube e tenta implementar uma série de recursos que reduzirão a probabilidade de usuários se depararem com notícias falsas na lista recomendada. “Mas o que Lewis descreve em seu relatório, do Data & Society, é ainda mais difícil de erradicar: uma tentativa coordenada de expor os espectadores a ideologias de direita, não necessariamente através do uso de teorias conspiratórias ou falsificações, mas através do tipo de construção de marca que o YouTube e outras ferramentas sociais se destacam”.

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