O GLOBO – 22/09/2018
ANGELINA NUNES
O assassinato do radialista Jairo de Sousa, de 43 anos, em Bragança, no Pará, completou três meses ontem sem que nenhum suspeito tenha sido apontado. Para pedir celeridade nas investigações, Jairo José Sousa Jr., de 18 anos, filho do radialista, fez uma manifestação na cidade. Junior ajudava o pai na rádio e sonha ser radialista:
— O espírito de luta dele está em mim. O que está errado tem de mudar. Medo, a gente sempre tem, masal ut anã opo deparar.
Os dois tiros que mataram seu pai levantaram um véu que encobre transações de negócios públicos e privados na região. O crime espalhou me doem outros colegas de profissão e revelou a existência de uma lista de quatro alvos marcados para morrer —o radialista era o segundo nome na lista. Há 12 anos, ele usava colete à prova de balas por conta das ameaças. Naquela madrugada, estavas ema proteção. Em seu programa, Sousa fazia denúncias, como obras realizadas por empresas que pertencem aparentes de prefeitos e secretários.
O caso está a cargo da equipe do diretor da Divisão de Homicídios da Polícia Civil do Pará, Fernando Bezerra, que recebeu os áudios dos últimos dois meses do programa de Jairo, onde ele cita pelo menos duas dezenas de pessoas ligadas às denúncias. Essas pessoas já foram ouvidas pelos policiais, que continuam em diligência pela cidade. A polícia investiga quem seria o mandante e o atirador, que estava em um carro estacionado em uma rua próxima. Em um vídeo, o assassino sai do carro, caminha na direção do prédio onde fica a rádio e depois volta correndo para o veículo, onde estariam outros dois homens. A investigação já identificou a existência de um segundo carro que ficou parado próximo ao portão que dá acesso a uma escada no antigo prédio onde a rádio está instalada.
PROGRAMA TIM LOPES
A morte de Jairo de Sousa é o segundo caso investigado pela equipe da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) dentro do Programa Tim Lopes, financiado pela Open Society Foundations. O primeiro foi o de Jefferson Pureza, de 39 anos, em Edealina, no interior de Goiás, executado com três tiros na cabeça quando descansava na varanda de sua casa, em 17 de janeiro de 2018. Seis pessoas estão detidas.
O vereador José Eduardo Alves da Silva (PR), acusado de ser o mandante, e outros dois homens que participaram da negociação do crime, esperam o julgamento. Três menores cumprem med id associo educativas: um atirou, o outro pilotouamo toe o terceiro recrutou os dois para a realização do crime, que custou R$ 5 mil mais um revólver 38.
Os dois casos mostram uma realidade do chamado Brasil Profundo, onde o trabalho de comunicadores encontra-se sob risco, na medida em que aumentam o tom das denúncias contra as autoridades locais. O Programa Tim Lopes é uma reação da Abraji à violência contra jornalistas. Em caso de crimes ligados ao exercício da profissão, uma rede de veículos da mídia tradicional e independente é acionada para acompanhar as investigações e publicar reportagens sobre as denúncias em que o jornalista trabalhava até ser morto. Integram a rede hoje: Correio (BA), O GLOBO, TV Globo, TV Aratu, Ponte Jornalismo, Projeto Colabora, Agência Pública, Veja e Poder 360. (*Angelina Nunes integra o conselho da Abraji e é coordenadora do Programa Tim Lopes)