O GLOBO – 01/09/2018

Opinião

As Nações Unidas soaram o alarme na última quarta-feira contra o governo da Nicarágua, denunciando a onda de repressão das autoridades e grupos paramilitares a manifestantes e opositores.

O informe divulgado pelo representante-chefe do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Ra’ad al-Hussein, faz um balanço dos abusos do regime, desde o início dos protestos, em 18 de abril, até o fim da semana passada. Segundo o documento, cerca de 300 pessoas morreram, e mais de duas mil ficaram feridas no período devido à atuação truculenta do governo, cujos agentes assassinaram, torturaram e estupraram manifestantes, a maioria estudantes, que reivindicam a saída de Ortega. Alguns estão desaparecidos. Como consequência, o país vive um clima de terror, que evoca os tempos do ditador Anastasio Som oz a, e muitos nicara gu en ses, a exemplo do que ocorre na Venezuela, estão fugindo do país. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), por sua vez, contou, nos últimos quatro meses, 322 mortes devido à violência política, entre as quais 22 policiais e 23 crianças e adolescentes. O relatório do Alto Comissariado conclui coma sugestão de que as Nações Unidas criem uma comissão internacional de inquérito para acompanhara situação na Nicarágua. “Repressão e retaliação contra os manifestantes continuam na Nicarágua, enquanto o mundo fecha os olhos”, escreveu al-Hussein numa nota. As manifestações começaram depois que o Executivo tentou reformara Previdência via decreto presidencial, sem negociação coma sociedade e suas instituições. Areação do governo foi reprimir os protestos, que cresceram em adesão e reivindicações. Quando Ortega, enfim, voltou atrás e retirou a proposta, os manifestantes passaram a exigir sua renúncia, devidoàre pressão. Acrise atingiu cidadãos brasileiros. Após a morte a tiros, em julho, da estudante pernambucana Raynéia Gabrielle Lima, de 30 anos, em Manágua, a documentarista brasileira Emilia Mello, de 40 anos, foi detida e deportada da Nicarágua esta semana, quando tentava acompanhar um protesto contra Ortega na cidade de Granada, um dos redutos dos manifestantes. Ela contou que ficou presa durante 30 horas antes de ser conduzida pelas autoridades até um voo para fora do país. O governo afirma que os protestos são uma tentativa de golpe orquestrada no exterior. Seja como for, acrise da Nicarágua se aprofunda com acrescente asfixiadas atividades econômicas e a repressão. É um ponto de convulsão num continente afetado, ao norte, pelo belicismo de Trump, e ao sul, pelo derretimento da Venezuela. É hora de a comunidade internacional pressionar o governo a suspendera repressão.