O GLOBO – 30/08/2018
PEDRO DORIA
Não é trivial acompanhar os muitos métodos de trapacear na campanha política digital. Esta semana foi marcada pela denúncia de uma rede de posts pagos do PT. Há duas semanas foi o congelamento, no Twitter, de inúmeras páginas da direita que tinham comportamento semelhante ao de bots. Por trás de cada operação destas há uma agência que contrata e um método distinto. O objetivo é sempre o mesmo: inflar a audiência. No início de agosto, o Facebook desbaratou uma rede de vendas de likes, no Brasil. E, esta, sabemos com consideráveis detalhes como operava.
Sabemos por conta do Laboratório de Pesquisa Forense Digital do Atlantic Council, o DFRLab, uma entidade apartidária com sede na capital americana, Washington, e que entre outras estuda o comportamento das redes. Parte de seu trabalho é acompanhar campanhas eleitorais on-line, e foi quando estavam mergulhados no último pleito mexicano que começaram a perceber uma proliferação de curtidas feitas sempre pelo mesmo conjunto de pessoas, para o mesmo grupo político, praticamente na mesma hora. E, estranhamente, vindas do Brasil. Desta investigação mapearam uma fazenda de curtidas brasileira operando a pleno vapor. Uma like farm. Pague e eles curtem seu post. Quantos curtires desejar.
Ao fim, o Facebook baniu as 46 contas, 72 grupos e cinco páginas. Foi bem menos badalado do que o banimento da rede ligada ao MBL e por um motivo muito simples. Esta turma, que operava sobre a misteriosa sigla PCSD, não tinha qualquer pauta política. Quem pagasse levava o serviço. O DFRLab viu seus curtires no México, na Índia. E levou a denúncia rápido ao Face porque, em sendo brasileira, certamente seria empregada na eleição daqui. Tudo banido, ninguém reclamou.
As like farms existem faz tempo. Neste caso, pelo que conseguiram descobrir os analistas do Atlantic Council, o grupo era aparentemente descentralizado. Algumas pessoas que ensinavam umas às outras os truques de criar perfis falsos, de como fazer publicidade, fechar negócios, combinar preços. Não operavam só no Facebook — estavam também no Instagram e no Twitter. E, como alguns dos grupos nos quais debatiam suas técnicas eram abertos, estes analistas puderam acompanhá-los trabalhando, flagrá-los negociando e fechando negócios. Raramente like farms são assim tão transparentes.
Estes, evidentemente, estão fora. Mas são uma lembrança muito importante. Numa campanha tão polarizada, quando aparecem abusos digitais vindos da esquerda ou da direita, é fácil gritar que o outro trapaceia enquanto os seus são puros. Como se tudo, na política, fosse ideologia. Não é. Neste jogo também há mercenários.