O GLOBO – 07/09/2018

O vice-presidente americano, Mike Pence, negou ontem ser o autor do artigo anônimo publicado na quartafeira pelo “New York Times”, no qual um membro do alto escalão do governo afirma que há um “grupo de resistentes” que fazem o possível para bloquear partes da agenda e “os piores impulsos” do presidente Donald Trump. Além de Pence, outros importantes nomes do gabinete, como o secretário de Estado, Mike Pompeo; o diretor da Inteligência Nacional, Dan Coats; e a secretária de Segurança Interna, Kirstjen Nielsen, também negaram a autoria do artigo. Mas o clima ques e instauro uno governo foi de desconfiança, coma busca de pistas que indiqe mo autor do texto.


Nele, o funcionário anônimo diz que, assim como muitos colegas, pensou em evocar a 25ª emenda da Constituição americana, que prevê a substituição de um chefe de Estado incapaz de governar, mas desistiu diante da crise constitucional que isso provocaria. Ele deixa claro não fazer parte da oposição e elogia conquistas do governo republicano, como“uma efetiva desregulamentação, a histórica reforma tributária, Forças Armadas mais robustas e mais ”. Mas faz duras críticas à liderança do presidente e cita o senador republicano John McCain, um feroz crítico de Trump que morreu no último dia 25, como exemplo: “Ele será sempre uma estrela-guia para restaurar a honra à vida pública e o diálogo nacional”.

Na procura pelo culpado, muitos se debruçaram sobre o artigo em busca de qualquer indício que apontasse para seu autor. A negativa do vice, feita no Twitter por seu assessor de imprensa, atraiu especialmente a atenção por causa do uso, no texto, da palavra lodestar (estrela-guia), pouco usada atualmente. Nas redes sociais, usuários encontraram a palavra em pronunciamentos anteriores de Pence.

O secretário de Estado Pompeo, que antes serviu como diretor da CIA, também disse não ser o autor, e criticou o “NYT” por publicar o texto.

—Não é meu —assegurou Pompeo a repórteres durante uma viagem a Nova Délhi, na Índia. — Eles não deveriam ter escolhido aceitar a palavra de um elemento ressentido, traiçoeiro e mal-intencionado e publicá-la em seu jornal.

Trump, que classificara o autor anônimo de “covarde”, voltou ontem ao Twitter para protestar. “O Estado profundo e a esquerda, e seu veículo, a mídia de notícias falsas, estão enlouquecendo — e não sabem o que fazer. Estou drenando o pântano, e o pântano está tentando reagir. Não se preocupem, venceremos!”, escreveu.

— O problema para Trump é que o autor pode ser tanta gente… — comentou um funcionário do governo ao “Washington Post”, sob condição de anonimato. — Não dá para apontar uma pessoa só.

ASPIRANTES AO TRONO

A rede britânica BBC compilou uma lista dos principais suspeitos e suas possíveis motivações, separando-os em quatro grupos.

Entre os chamados “aspirantes ao trono”, além de Pence, estão a embaixadora americana na ONU, Nikki Haley, e o secretário de Energia, Rick Perry, que criticaram duramente Trump durante sua campanha presidencial. Há o grupo da política externa, que inclui, além de Pompeo, Coats e Nielsen, o secretário de Defesa, James Mattis. Embora não tenha explicitado resistência às diretrizes do presidente, o general teria, em diversas ocasiões, driblado ordens expressas dele.

O terceiro grupo seria o do Departamento de Justiça, apontado como a porção do governo na qual os funcionários teriam mais motivos para se ressentir. Ele inclui o procurador-geral Jeff Sessions, seu vice Rod Rosenstein, e o diretor do FBI, Christopher Wray, vítimas de constantes críticas públicas por parte do presidente. No grupo final estão o chefe do Estado-Maior, John Kelly; a secretária de Imprensa da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders; e o conselheiro e assistente do presidente, Don McGahn. Todos estão envolvidos em rumores de atritos constantes com Trump, que estaria considerando substituí-los.

A lista de suspeitos inclui ainda o diretor de Orçamento, Mick Mulvaney, que estaria frustrado com a retórica anticomercial do presidente e suas mudanças de opinião nas discussões sobre gastos. Sanders assinou a nota da Casa Branca condenando o artigo, e Mulvaney emitiu uma nota negando sua autoria.

—Não deve demorar muito até que descubramos quem escreveu — afirmou a líder do Partido Democrata na Câmara, Nancy Pelosi. — Minha primeira aposta era o vice-presidente, mas poderia ser Coats ou Pompeo. Todos negaram. Por eliminação, acabaremos chegando ao mordomo.