Reconquistar a confiança da audiência não é apenas um imperativo econômico para as empresas jornalísticas, mas também uma obrigação social e democrática, afirmou na manhã desta quinta-feira (30) Vincent Peyrègne, Executivo-Chefe (CEO) da Associação Mundial de Jornais e Editores de Notícias (WAN-IFRA). Ele fez a palestra principal do Seminário “O Futuro da Confiança”, que abriu a solenidade promovida pela Associação Nacional de Jornas (ANJ) para a entrega do Prêmio ANJ de Liberdade de Imprensa, em São Paulo.

Peyrègne tomou a França como exemplo porque, como disse, fornece um contexto instrutivo fenômeno da desconfiança, de suas raízes e de suas implicações sociais e econômicas. A confiança, destacou, é “complexa, volátil e uma compreensão equivocada de sua dinâmica pode levar a erros de julgamento quando se trata de buscar soluções para o problema”.

Ao longo dos últimos 40 anos, pesquisas realizadas nos países desenvolvidos têm mostrado que os franceses, mais que quaisquer outros povos suspeitam de seus compatriotas, das autoridades e do mercado. Isso limita sua capacidade de colaborar, o que leva as autoridades a regular tudo e esvazia o conteúdo e o valor do diálogo social. Felizmente isso não é irreversível, observou Peyrègne .

Jornalismo mais local

A falta de confiança nos meios de comunicação, advertiu o executivo, tem encorajado políticos, grupos militantes e empresas a se dirigirem diretamente ao público. Diante desse quadro ele defende que os jornalistas devem adotar uma abordagem mais local e próxima da sociedade, e promovendo uma conversa construtiva com os leitores, o que significa a produção de matérias com foco na busca de soluções para os problemas e o empoderamento das audiências, preservando as funções essências e a ética jornalísticas.

Peyrègne concluiu dizendo que acredita que a necessidade de desenvolver uma estratégia para promover a confiança o jornalismo voltado para a busca de soluções e a educação para a mídia que faça recuar a difusão de notícias falsas são imperativos normativos e empresariais que produzirão efeitos duradouros para as empresas jornalísticas e para as sociedades dos respectivos países.

Restabelecer a confiança do público

Cada vez mais as empresas jornalísticas devem fazer da veracidade das informações o seu grande diferencial, num momento em que as notícias falsas imperam na internet e chegam a confundir os leitores. “Restabelecer a confiança com nosso público é não apenas um imperativo econômico, mas também uma obrigação social e democrática”, enfatizou Vincent Peyrègne , CEO da Associação Mundial de Jornais e Editores de Notícias (WAN-IFRA), na abertura do seminário O Futuro da Confiança.

O velho modelo de negócios centralizado na publicidade está se transformando em outro com receitas baseadas no leitor. Por isso, agora a notícia deve ser um negócio que cria valor para as comunidades, estabelecendo um forte relacionamento com o seu público. Pesquisa feita pela Edelman em 2017 revelou uma queda de confiança na mídia tradicional. Porém houve um aumento da confiança nos veículos de jornalismo. Isso porque as pessoas estão buscando elementos de veracidade que as ajudem a organizar o caos ao seu redor.

Neste cenário de desconfiança, as empresas jornalísticas podem virar o jogo a seu favor. “A confiança é a nova moeda. Nosso leitor está faminto por jornalismo digno de crédito e temos de aproveitar esta oportunidade”, alertou Peyrègne. Algumas ferramentas podem alavancar a confiança do leitor. Uma delas é adotar um diálogo aberto e construtivo: os jornalistas devem adotar uma adotar uma abordagem mais local e próxima à sociedade.

Fonte confiável

Outra iniciativa importante é checar a origem das informações. Empresas jornalísticas estão fazendo parcerias com entidades especializadas em checar informações, como a sueca Faktiskt, a Faktenfinder na Alemanha, SNU FactCheck na Coreia do Sul e a Croos Check, na França. Há, ainda, uma aliança entre as organizações de notícias e as empresas de tecnologia para fornecer clareza nas notícias. Neste caso, indicadores de confiança seriam um sinal para os leitores de que a notícia provem de fonte confiável. Alguns exemplos dessas iniciativas são o projeto Deepnews.ai e o banco de dados NewsGuard.

Segundo Peyrègne, a confiança nos meios de comunicação aumenta com a inclusão. Quando as pessoas sentem que suas questões são abordadas e suas vozes são ouvidas, tendem a acreditar mais nas notícias. No entanto, pesquisas mostra que as mulheres, por exemplo estão sub-representadas nas redações, especialmente em países da África, Oriente Médio e Ásia. Em todo o mundo, apenas 27% dos postos de trabalho e gestão de topo nos meios de comunicação são ocupados por mulheres. Entre os repórteres, 36% dos postos de trabalho são realizadas por mulheres.  

Proteção aos jornalistas

Cabe também aos jornais proteger os seus jornalistas, na medida em que há um aumento de hostilidades e intimidações por parte de grupos que agem com má-fé. Há verdadeiras campanhas para desacreditar o trabalho dos profissionais da imprensa. Isso é agravado pelo fato de que quase 60% da população do planeta não saber discernir o bom jornalismo de boatos e falsidades. Por isso, é necessário um trabalho de alfabetização em mídia.  

De acordo com estudo encomendado pelo Ministério da Cultura da França, os leitores mais jovens são mais propensos a checar informações se receberam treinamento adequado. O governo francês duplicou seu investimento na formação de alfabetização de mídia e está trabalhando no sentido tornar obrigatória a educação de cada aluno. O jornal The Globe and Mail, do Canadá, anunciou um acordo com uma Ong para fornecer aprendizagem online gratuita, bem como formação para educadores. Na República Checa, organizações de notícias oferecem cursos abertos ao público.

Em 2017, o Fórum Mundial de Editores, Editores, então presidido por Marcelo Rech, aprovou cinco princípios para ajudar a reconstruir a confiança do jornalismo profissional.

São eles:

1 – Em um mundo de hiperinformação, credibilidade, independência, rigor, ética profissional, transparência e pluralismo são os valores que irão confirmar uma relação de confiança com o público.

2 – Jornalismo de nível distingue-se pela veracidade do seu conteúdo, questionando e verificando o material que circula nas redes sociais. Reconhece as mídias sociais como fonte de informação para verificação adicional das informações e como uma plataforma para alavancar o conteúdo profissional.

3 -A missão do jornalismo é servir a sociedade, fornecendo informações checadas de alta qualidade e com um certificado confiável de origem.

4 – O jornalismo atual vai além de fatos básicos e permite e incentiva a análise contextual e investigativa.

5 – O jornalismo de nível deve ser conduzido pela confiança e princípios orientadores da veracidade, sendo de legítimo interesse e relevância social.