O GLOBO – 15/08/2018

PEDRO DORIA

A estranhíssima eleição de 2018 será decidida com base num tripé. Máquina partidária, espaço na TV e o mundo digital. É impossível dizer que peso cada pé terá. Mas dá para afirmar que os dois líderes das pesquisas, o ex-presidente Lula (PT) e o deputado Jair Bolsonaro (PSL), têm as duas redes mais bem construídas. Ou seja, com mais engajamento. Um veterano da internet brasileira que também tem por hábito seguir de perto a política digital está acompanhando esta construção faz mais de um ano. E ele tem algumas conclusões.

Há formas diferentes de trabalhar as redes sociais e nenhuma é igual à outra. As de Lula e Bolsonaro têm suas semelhanças. São formadas por militantes aguerridos, quase torcedores. Se trata de um público pronto para o embate.

Bolsonaro, porém, tem uma rede particularmente bem estruturada para este embate. Sua equipe tem a capacidade de localizar críticas nas redes e mandar militantes responder muito rápido. E a mobilização é instantânea. É única, também, em sua capacidade de gerar conversas em todas: WhatsApp, Facebook, Twitter, YouTube e até Instagram.

O investimento em estruturar este conjunto de eleitores leais foi feito a partir do impeachment, e o ex-capitão liderou com folga, na internet, até o momento da prisão de Lula. Ali, o jogo virou a favor do petista.

Três outros candidatos com importância nas pesquisas têm redes incrivelmente fracas. Geraldo Alckmin (PSDB), Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede). No caso de Alckmin e Ciro, ela sequer chegou a ser erguida de fato. Até os bots de Twitter do tucano —aqueles programas que fingem ser gente — são rudimentares, feitos com tecnologia muito simples. Ambos têm pouco alcance. Com Marina é distinto. Tanto ela quanto seu partido têm muitos seguidores em várias redes, angariados ao longo dos últimos quatro anos. Seguidores, diga-se, realmente atraídos pelas propostas. Mas não são ativados pelas equipes e, por isso mesmo, terminam sem serem impulsionados pelos algoritmos. O resultado é que pouca gente vê, comenta ou redistribui.

E há dois casos notáveis, segundo este especialista. A vice de Lula e Haddad, Manuela D’Ávila (PCdoB), e João Amoêdo (Novo). Quando engajamento é o que conta, Manuela aparece consistentemente em terceiro, com Amoêdo se aproximando nas últimas semanas. Para ela, que agora é vice do PT, a estratégia foi mexer com causas identitárias: o feminismo, a maternidade, LGBT. Estar a toda hora falando de temas que apaixonam seus grupos. Com Amoêdo é parecido —em seu caso, na defesa de valores do liberalismo mais conservador.