A cooperação entre organizações e a valorização dos atributos humanos serão decisivas para o futuro do jornalismo em um cenário de rápida expansão da inteligência artificial. A avaliação foi apresentada pelo jornalista e professor do curso de Jornalismo da ESPM Ricardo Gandour durante a palestra “No fim, é tudo sobre o ser humano”, que encerrou o 4º DATA DAY da Associação Nacional de Jornais (ANJ), realizado recentemente em São Paulo.
Gandour afirmou que a evolução da inteligência artificial amplia a importância da colaboração entre empresas, instituições e profissionais. Como exemplo, citou a formação recente de duas grandes alianças internacionais voltadas ao desenvolvimento da tecnologia, uma liderada pelos Estados Unidos e outra pela China. Para ele, o movimento demonstra que, mesmo em um ambiente de forte competição, os grandes desafios tecnológicos continuam exigindo ações conjuntas.
“Muitos já falam no surgimento de uma diplomacia digital. Independentemente de quem tenha razão, a humanidade continua recorrendo ao trabalho coletivo”, afirmou.
O jornalista também defendeu que a inteligência artificial não reduz o papel das pessoas nas redações. Segundo ele, as ferramentas transformam processos, aumentam a produtividade e automatizam tarefas, mas não substituem competências como senso crítico, julgamento editorial, criatividade, capacidade de interpretar fatos e responsabilidade na tomada de decisões.
Para Gandour, essas características continuarão sendo o principal diferencial das organizações jornalísticas.
O professor afirmou que o setor atravessa um ciclo permanente de mudanças e que profissionais e empresas precisam desenvolver capacidade de adaptação. Ao mesmo tempo, ressaltou que inovação não significa abandonar os fundamentos da profissão.
“Não sou uma pessoa nostálgica. Não gosto daquele discurso de ‘no meu tempo era melhor’. Isso não existe. Precisamos olhar para a frente, nos reinventar e acompanhar as mudanças”, disse.
Gandour explicou que acompanha esse processo tanto na universidade quanto nos debates sobre inovação no setor de notícias. Professor da ESPM há 12 anos, ele afirmou que a convivência entre a academia e o mercado reforça a percepção de que as transformações tecnológicas ocorrem em ritmo cada vez mais acelerado.
“Está tudo mudando em uma velocidade tão grande que parece não haver mais começo nem fim. Vivemos um fluxo contínuo de transformação”, afirmou.
Apesar desse cenário, o jornalista defendeu que a experiência acumulada continua tendo valor. Ele comparou esse equilíbrio a uma “mala de mão”, na qual o profissional leva princípios e aprendizados construídos ao longo da carreira, enquanto abre espaço para novos conhecimentos.
“Há espaço para novos aprendizados, mas também existem princípios que continuam importantes e não devem ser descartados”, concluiu.