O GLOBO – 05/02/2020
MIGUEL CABALLERO
Um presidente que faz vista grossa a problemas públicos de seus auxiliares assume para si ao menos parte do desgaste. É assim na velha ou na nova política, e o presidente Jair Bolsonaro, por enquanto, dobra a aposta com o ministro da Educação, Abraham Weintraub, e o secretário de Comunicação, Fabio Wajngarten, mantendo ambos nos cargos.
O caso de Weintraub é mais técnico do que moral. A crise do Enem custa ao presidente o maior percentual de comentários negativos nas redes sociais, sabidamente um importante termômetro no Planalto.
Já Wajngarten viu sua situação se agravar. Depois de revelado que sua empresa tem contratos com emissoras e agências que recebem verba de publicidade sob sua gestão no governo, agora a Polícia Federal abriu inquérito para apurar se a prática configurou corrupção passiva e peculato. Além disso, o secretário de Comunicação informou à Comissão de Ética da Presidência, ao assumir o cargo, que não mantinha relações comerciais com empresas que recebem da Secom, como informou a “Folha de S.Paulo”.
No Brasil, demissões de ministros costumam ser definidas mais pelas conveniências políticas do que por um critério de credibilidade para o cargo. Em fevereiro de 2017, Michel Temer anunciou que afastaria provisoriamente o auxiliar que fosse denunciado pelo Ministério Público à
Justiça. Se a denúncia fosse aceita, o ministro estaria demitido. Em setembro, Temer descumpriu a promessa, quando Eliseu Padilha e Moreira Franco, seus principais aliados, foram denunciados e permaneceram nos cargos.
Eleito com discurso anticorrupção, Bolsonaro evitou se comprometer como o antecessor. Mas o presidente adota uma espécie de rigor flexível, ajustando o sarrafo da tolerância a suspeitas de desvios a depender de quem é o envolvido. Em outubro passado, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, foi denunciado pelo MPF sob acusação de comandar o esquema de laranjas no PSL de Minas Gerais. Nada ocorreu ao auxiliar que trabalhou pela campanha de Bolsonaro em um estadochave para as eleições presidenciais.
Já na semana passada, o presidente demitiu o número 2 da Casa Civil por usar um avião da FAB — o que é previsto legalmente —para viajar à Índia.