O Guardian Media Group (GMG), que edita os jornais britânicos The Guardian e The Observer, anunciou que não aceitará mais publicidade de empresas de petróleo e gás, tornando-se a primeira grande organização de notícias do mundo a instituir uma proibição total de receber dinheiro de empresas que extraem combustíveis fósseis. A medida segue os esforços para reduzir as emissões de carbono da empresa e aumentar as reportagens sobre a crise climática.

A proibição, segundo reportagem do The Guardian, será aplicada a qualquer empresa envolvida principalmente na extração de combustíveis fósseis, incluindo muitos dos maiores poluidores do mundo. “Nossa decisão é baseada nos esforços de muitas décadas desse setor para impedir ações climáticas significativas por governos em todo o mundo”, disseram a executiva-chefe interina da empresa, Anna Bateson, e a diretora financeira, Hamish Nicklin, em um comunicado conjunto.

De acordo com as executivas, a resposta ao aquecimento global foi o “maior desafio de nossos tempos” e destacaram as reportagens do The Guardian sobre como o lobby de empresas de energia prejudicou explicitamente a causa ambiental. As duas enfatizaram o compromisso da empresa em neutralizar suas emissões de carbono até 2030, ao mesmo tempo que deixou de financiar quase inteiramente seu fundo de doação Scott Trust, de investimentos em combustíveis fósseis.

A decisão de recusar dinheiro publicitário das empresas de combustíveis fósseis foi anunciada logo depois que o conselho do Guardian Media Group ter emitido aviso segundo o qual  a empresa está enfrentando “ventos contrários este ano”. A publicidade representa 40% da receita da GMG, o que significa que continua sendo uma maneira essencial de financiar o material produzido pelos jornalistas do The Guardian e do The Observer em todo o mundo.

Anna e Hamish admitiram que a proibição desse tipo de material publicitário resultaria em um golpe financeiro. “O modelo de financiamento para o Guardian – como a maioria das empresas de mídia de alta qualidade – continuará sendo precário nos próximos anos. É verdade que a rejeição de alguns anúncios pode tornar nossas vidas um pouco mais difíceis no curto prazo. No entanto, acreditamos que a construção de uma organização mais objetiva e a manutenção financeira sustentável precisam andar de mãos dadas”, acrescentaram.

Inovação

O jornal The Guardian destaca-se no mercado jornalístico por uma série de iniciativas bem-sucedidas muito diferentes dos caminhos escolhidos por outros grandes jornais mundiais. O diário britânico também é conhecido por buscar implantar com mais celeridade políticas voltadas à igualdade entre gêneros e à diversidade.

No ano passado, o jornal informou ter conseguido atingir seus primeiro resultado financeiro positivo em 20 anos. A publicação registrou no ano fiscal entre abril de 2018 a abril de 2019 um faturamento de 223 milhões de libras (R$ 1,14 bilhões) e 800 mil libras (R$ 4 milhões) de lucro operacional. O resultado foi obtido a partir de uma estratégia que, além de cortes de 20% nos custos ao longo de três anos, está calcada em um programa de apoiadores (que também são leitores) e doações e não pelo sistema de paywall, mais comum entre os principais diários do mundo.

“Alcançar um terceiro ano consecutivo de crescimento de receita e atingir nossa meta de equilíbrio é um tributo a todos dentro de nossa organização. A GNM foi transformada nos últimos três anos em um negócio mais financiado por leitores, mais digital e mais internacional”, disse no ano passado David Pemsel, diretor-executivo do grupo. Na época, o modelo do The Guardian, no qual o conteúdo digital do jornal é de livre acesso, tinha 655 mil apoiadores regulares e mais 300 mil contribuintes pontuais.

A redação do diário tem quase o mesmo número de profissionais femininos e masculinos, e o salário médio das mulheres está muito próximo dos rendimentos dos homens. Além disso, há um esforço para que as mulheres ocupem os cargos de chefia, um desafio para a maioria das organizações de todos os mercados. Não é por acaso que o anúncio da decisão de banir a publicidade de empresas de petróleo e gás tenha sido conduzido por Anna Bateson e Hamish Nicklin.

A inovação é tanta que a partir de março a neurocientista Annette Thomas responderá à função de CEO do The Guardian, que hoje é ocupada por Pemsel, para dar ainda mais flexibilidade ao modelo de negócios do jornal. Annette terá a missão de dar continuidade ao esforço pela estabilidade financeira do diário, aproveitando sua experiência em publicações científicas.

Leia mais em:

https://www.theguardian.com/media/2020/jan/29/guardian-to-ban-advertising-from-fossil-fuel-firms-climate-crisis

https://exame.abril.com.br/negocios/guardian-decide-banir-publicidade-de-empresas-de-petroleo-e-gas/

https://www.niemanlab.org/2020/01/the-new-ceo-overseeing-the-guardian-has-a-ph-d-in-cell-biology-and-neuroscience/