Os esforços de muitas organizações de mídia e de jornalistas em todo o mundo para reverter uma marca negativa histórica da imprensa e garantir igualdade de gênero nas redações começam aos poucos a produzir bons resultados. E o Reino Unido desponta na vanguarda dessa tendência com cases de sucesso, ainda que a média salarial e o número de mulheres em cargos de chefia permaneçam inferiores aos dos homens. Além da rota rumo à equidade, as profissionais femininas destacam-se por levarem para dentro das redações ideias e práticas inovadoras.
Reportagem do site Press Gazette informa, por exemplo, que a partir da próxima semana os jornais britânicos de abrangência nacional serão editados por um número de mulheres superior a qualquer outro período da história da imprensa do Reino Unido. Victoria Newton, segundo assinala o site especializado em comunicação, assume o The Sun. Ela será a segunda editora do tabloide depois de Rebekah Brooks. Os jornais Sunday Mirror e Sunday People serão comandados por Alison Phillips.
Recentemente, Roula Khalaf assumiu o cargo de primeira editora do Financial Times após a saída de Lionel Barber, enquanto Emma Tucker começou como editora do Sunday Times esta semana, substituindo Martin Ivens. Além disso, Kath Viner segue como editora do The Guardian desde 2015. Isso significa que dos 22 jornais nacionais diários e de domingo auditados no Reino Unido (excluindo a Escócia), oito deles serão editados por mulheres – mais de um terço (36%). Tomando os dez títulos nacionais diários sozinhos (The Sun, The Times, Daily Mirror, Daily Mail, Daily Telegraph, Metro, The i, The Guardian, FT, Daily Star) 40% serão editados por mulheres a partir de segunda-feira.
Neurociência a serviço do jornalismo
Mas não se trata apenas de representação. Quando estão na liderança de equipes, as mulheres também revelam alta capacidade de inovação. É o caso de Roula Khalaf, que deteve o segundo posto na hierarquia editorial do Financial Times desde 2016, comandando o planejamento estratégico da redação. Foi ela quem liderou, por exemplo, o Trade Secret, um serviço de notícias cujo foco é o comércio internacional.
No Guardian Media Group (GMG), que edita o The Guardian o The Observer, Kath Viner pilotou, ao lado do CEO David Pemsel, a pior fase da crise financeira do jornal, no momento em que as receitas de anúncios digitais migraram dos editores de notícias em direção ao Google e Facebook em uma mudança sísmica.
O jornal estava a caminho de perder 83 milhões de libras naquele exercício, e Pemsel e Viner concordaram em mudanças drásticas em uma tentativa de empatar até 2019. Então, além de cortes, o The Guardian adotou um modelo pioneiro de contribuições voluntárias dos leitores para reduzir sua dependência das vendas de anúncios. O modelo no estilo de associação funcionou, e o diário hoje tem mais de um milhão de contribuintes pagantes, dos quais 655 mil são recorrentes, além de 300 mil doadores pontuais.
O sistema bem-sucedido, curiosamente, levou o jornal britânico a promover um movimento ainda mais arrojado para a substituição de Pemsel em março. Além de ser mulher, a profissional escolhida para a função tem em seu currículo uma especialização científica. Annette Thomas tem formação em publicações acadêmicas e possui doutorado pela Universidade de Yale em biologia celular e neurociência.
A neurocientista começou sua carreira como editora da revista científica Nature antes de trabalhar na Macmillan Science and Education, uma das maiores editoras especializadas do mundo. “Seu histórico é excepcional. Ela sempre conseguiu um crescimento sustentável por meio de um profundo envolvimento com os usuários finais, defendendo novos modelos de negócios inovadores com acesso mais aberto a conteúdo e dados e construindo equipes de gerenciamento diversas e inclusivas”, disse Neil Berkett, presidente do conselho da GMG,
A falta da diversidade, entretanto, continua sendo um problema nas organizações britânicas, principalmente nos níveis editoriais seniores. A pesquisa Women in Journalism de 2017 constatou que dois terços dos cargos seniores nos jornais britânicos são ocupados por homens. Apenas 25% das matérias de primeira página de jornais nacionais publicaram linhas femininas nos cinco anos anteriores à data da pesquisa.
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