O GLOBO – 08/02/2020
EDITORIAL
O médico Li Wenliang teve a morte confirmada na noite de quinta, vítima do coronavírus. Se já era saudado nas redes sociais por ter sido o primeiro profissional de saúde a alertar para uma “doença misteriosa” de pacientes internados no seu hospital em Wuhan — parecida com a Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars), que também aparecera na China, há 16 anos —, Li transformou-se definitivamente em herói ao ser vítima do novo vírus. Sobre o qual chamara a atenção de outros médicos, e por isso foi acusado pelo governo chinês de “espalhar o pânico”.
Pequim agiu como uma ditadura que é. Da mesma forma que na Sars, tentou abafar. Mas, mesmo o regime que talvez seja no mundo o que mais vigia a população, não conseguiu impedir a circulação de notícias e comentários sobre a epidemia que já se espalhava.
Pelo menos, o presidente Xi Jinping recuou na insensatez. Medidas preventivas começaram a ser tomadas, e a população passou a ser informada.
Terminou recebendo elogios de Trump e da Organização Mundial da Saúde (OMS), e ainda aproveitou o interesse despertado pelo coronavírus para fazer marketing da eficiência chinesa: a construção de hospitais em questão de dias passou a ser transmitida ao vivo para todo o mundo.
O ponto-chave é a necessidade de todos serem informados pelas autoridades de tudo o que acontece, e da forma mais rápida. É o que tem feito o Ministério da Saúde, em um dos raros bons exemplos administrativos no governo Bolsonaro até agora.
Entrevistas coletivas diárias passaram a ser dadas por secretários da pasta — como o de Vigilância em Saúde, Wanderson Kleber, e o secretário-executivo, João Gabbardo —, com estatísticas sobre o acompanhamento de possíveis casos de contaminação no Brasil e informações gerais acerca de prevenções e tudo o mais que os repórteres perguntem. Há, ainda, um cuidado especial com as fake news, que proliferam nessas situações. No site do Ministério há uma lista das mentiras eletrônicas e seus desmentidos.
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Nesta semana, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e equipe se reuniram com os secretários estaduais da área em Brasília, para tratar de planos de contingência contra o vírus.
Parece inevitável que ele entre no país. Mas há fortes indícios de que o poder público, pelo menos o federal, se prepara com alguma eficiência para enfrentá-lo. Só aí este trabalho será testado.
A evolução dessa crise mundial de saúde pública define como essencial não apenas o fluxo constante e transparente de informações para a sociedade, mas também a interconexão da comunidade científica global, para o compartilhamento de avanços no trabalho de desenvolvimento de uma vacina contra o vírus. Também neste circuito atua a OMS.
Após debelada a epidemia, um balanço de como ela foi enfrentada deverá ajudar no aperfeiçoamento de protocolos que precisarão ser comuns a toda a comunidade internacional.