O GLOBO – 12/02/2020
JOÃO PAULO SACONI
O jornal “Folha de S. Paulo” publicou reportagem em que desmentiu depoimento prestado ontem por uma testemunha ou vidana Comissão Parlamentar Mista de Inquérito( CP MI) que tem como finalidade apurara divulgação de notícias falsas nas eleições de 2018 — a chamada “CPMI das Fake News”.
Diante de parlamentares, Hans Ri ver do Nascimento— um ex-funcionário da Yacows, agência que faz envios múltiplos de conteúdo via WhatsApp — fez afirmações insultuosas sobre aconduta da jornalista Patrícia Campos Mello, da “Folha”. River negou ainda ter repassado informações à repórter durante a eleição de 2018, o que foi desmentido pelo jornal, que exibiu documentos e mensagens das conversas entre os dois.
O depoimento de Hans River era sobre a reportagem escrita por Patrícia noticiando que empresas contrataram o envio em massa de mensagens via WhatsApp com conteúdo crítico à candidatura do PT. A Yacows teria explorado comercialmente a prática.
ABORDAGEM INICIAL
Na CPMI, Hans River afirmou que foi procurado inicialmente para falar sobre um livro que estava lançando à época, e não sobre o trabalho na Yacows. Ele também negou ter dividido com a repórter documentos sobre a atuação da empresa. A “Folha”, no entanto, divulgou registros de conversas que mostram, entre outros momentos, a abordagem inicial de Patrícia ao entrevistado, na qual ela deixa claro que está elaborando uma reportagem sobre os disparos em massa. O material também esclarece que o ex-funcionário enviou arquivos internos da empresa à jornalista, embora tenha negado que o fez durante seu depoimento.
Hans River também afirmou que Patrícia “se insinuou” e que pretendia “sair” com ele. A fala dele foi compartilhada pelo deputado Eduardo Bolsonaro em suas redes ainda durante a sessão.
— Ela (Patrícia) queria sair comigo e eu não dei interesse para ela. Ela parou na porta da minha casa e se insinuou para entrar, com o propósito de pegar a matéria —relatou Hans River.
Em resposta a esse trecho do depoimento, Eduardo disse não duvidar que a jornalista “possa ter se insinuado sexualmente” com o intuito de “tentar prejudicar a campanha do presidente Jair Bolsonaro”. Após o fim da sessão, o deputado compartilhou vídeo do depoimento no Twitter.
O histórico de mensagens divulgado pela “Folha” mostra que, ao contrário do que disse na CPMI, foi Hans River quem tentou desviar o foco do diálogo. Ele a convidou para assistir a um show, mas Patricia não respondeu ao convite.
O ex-funcionário foi procurado por Patrícia depois de abrir um processo trabalhista contra a Yacows. Após a empresa ter sido procurada para comentar a denúncia sobre o uso que supostamente fazia do WhatsApp, Hans River voltou atrás e desistiu de contribuir com o trabalho da repórter. Em seguida, ele formalizou um acordo trabalhista com a Yacows.
Após o ocorrido, a “Folha” divulgou nota em que “repudia as mentiras e os insultos”. O texto também diz que “causa estupefação, ainda, o Congresso Nacional servir de palco ao baixo nível e as insinuações ultrajantes do deputado Eduardo Bolsonaro”. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) também repudiou o ocorrido.