O GLOBO – 22/02/2020

Nascido no dia 21 de julho de 1920 em uma família judia em Blida, na Argélia, Jean Daniel era conhecido pelo apelido de Bensaid e combateu a ocupação nazista na França. Fundou a revista Le Nouvel Observateur em 1964, junto com o empresário Claude Perdriel.

Daniel foi diretor da revista até 2008. Durante sua gestão, a publicação se tornou uma grande defensora de causas sociais, como a legalização do aborto e os direitos LGBTs. O jornalista se tornou mundialmente famoso em 1963 ao entrevistar o então presidente americano John F. Kennedy, que lhe passou uma mensagem a ser levada para o líder cubano Fidel Castro. No mês seguinte, Daniel viajou a Cuba, onde se reuniu com Fidel. Os dias que passou com o dirigente comunista foram descritos em seu livro “Le temps que reste” (“O tempo que resta”, em tradução livre).

“A princípio, Fidel me escutou —quer dizer, escutou Kennedy — com um interesse voraz: tocava a barba, apertando e endireitando sua boina preta, ajustando o casaco de guerrilheiro e lançando mil luzes brilhantes das profundas cavernas de seus olhos”, escreveu Daniel em seu livro.

O jornalista estava almoçando com Fidel, em sua casa em Varadero, quando souberam do assassinato de Kennedy, em 22 de novembro de 1963. “Como? Um atentado? Nos disseram que Kennedy tinha acabado de ser morto em Dallas. E a conversa continuou. Ferido? Muito grave?”, relatou no livro. “Voltou a se sentar à mesa e repetiu três vezes: é uma mánotícia. Finalmente, o anúncio fatal: o presidente Kennedy está morto. Fidel se levanta e diz: ‘Este é o final da sua missão de paz’.” Daniel faleceu no meio da semana.

“Ele morreu na noite de quarta-feira aos 99 anos, após uma longa vida de paixão, de compromisso e de criação. O jornalista de maior prestígio morreu. Ele era ao mesmo tempo uma testemunha, um ator e a uma consciência deste mundo”, disse o comunicado sobre a morte de Daniel no site da revista. O presidente francês, Emmanuel Macron, manifestou-se lamentou no Twitter, e o chamou de “monumento do jornalismo” e “guia da esquerda”. “A França perde uma consciência, dos homens que fazem História pela força de sua caneta”, escreveu Macron.