O GLOBO – 25/02/2020

O pedido de extradição para os Estados Unidos do ativista australiano Julian Assange, fundador do WikiLeaks, começou ontem a ser julgado por uma corte britânica. Nos EUA, Assange é alvo de 18 acusações, entre elas as de espionagem e de ter conspirado para invadir computadores do governo. Caso seja extraditado para ser julgado pela Justiça americana, ele poderá ser condenado a uma pena de até 175 anos.


O WikiLeaks ganhou destaque em 2010, quando divulgou mais de 250 mil mensagens diplomáticas e cerca de 500 mil documentos confidenciais sobre as atividades do Exército americano no Iraque e no Afeganistão durante a chamada “guerra ao terror”.

RISCO PARA INFORMANTES

Assange assistiu à audiência no Tribunal de Woolwich, próximo à prisão de Belmarsh, onde está preso, em Londres. A decisão da Justiça britânica, porém, só deverá ser conhecida em maio e poderá ser objeto de recurso.

O advogado que representa o governo dos Estados Unidos, James Lewis, declarou na primeira audiência que Assange pôs em risco a vida de pessoas que ajudaram o Ocidente e moravam no Iraque, no Irã e no Afeganistão. Segundo ele, o vazamento das informações expôs informantes, jornalistas e dissidentes que vivem no Oriente Médio e na Ásia.

— Gostaria de lembrar ao tribunal sobre as consequências dos atos de Assange

para a segurança das pessoas que nos passavam informações sobre Iraque, Afeganistão e Irã. Centenas de pessoas em todo o mundo tiveram de ser alertadas após a divulgação do WikiLeaks e algumas tiveram que ser realocadas —disse.

Jennifer Robinson, uma das advogadas de Assange, afirmou que as acusações dos EUA contra o ativista criminalizam atividades cruciais para o jornalismo investigativo e que o trabalho do australiano trouxe revelações fundamentais sobre as ações americanas no Oriente Médio.

— Estamos falando de assassinatos em massa, evidências de crime de guerra. As informações do WikiLeaks são uma fonte importante para denunciar abusos de governos —frisou Robinson.

Em uma audiência anterior, Assange declarara que se recusava a “se submeter a uma extradição por um trabalho jornalístico que reuniu diversas evidências e protegeu muitas pessoas”.

O WikiLeaks também divulgou, em 2016, e-mails da campanha de Hillary Clinton que, segundo promotores americanos, foram obtidos quando hackers russos invadiram computadores do Comitê Nacional Democrata. O australiano, de 48 anos, passou sete anos refugiado na Embaixada do Equador, em Londres, antes de ter o asilo revogado e ser preso em abril do ano passado.

Inicialmente, Assange foi acusado apenas de ter hackeado o governo americano. Porém, em maio do ano passado, a Justiça dos EUA apresentou mais 17 denúncias, baseadas numa lei contra a espionagem. As acusações foram questionadas por apoiadores do ativista e entidades independentes, que as consideram um perigo para a liberdade de imprensa.

Agora, a Justiça britânica deverá determinar se o pedido de extradição respeita critérios legais e, sobretudo, se não é desproporcional ou incompatível com os direitos humanos.

Na porta do tribunal, apoiadores de Assange fizeram uma manifestação pedindo que a extradição do ativista seja negada. O Conselho da Europa alertou, na semana passada, que a extradição de Assange teria um efeito negativo para a liberdade de imprensa.

Na última quarta-feira, a defesa de Assange disse, em outra audiência, que o presidente americano, Donald Trump, prometera perdoar o australiano se ele negasse o envolvimento da Rússia no vazamento dos e-mails do Partido Democrata. O vazamento prejudicou a campanha de Hillary Clinton, que concorria com Trump na disputa eleitoral de 2016. A Casa Branca negou que a proposta tenha sido feita.

PRESSÃO AMERICANA

De acordo com Edward Fitzgerald, outro integrante da equipe de advogados do fundador do WikiLeaks, Assange foi procurado pelo ex-deputado republicano Dana Rohrabacher em agosto de 2017, período em que ainda estava asilado na Embaixada do Equador em Londres. Por sua vez, o ex-congressista negou que tenha sido enviado em nome de Trump e informou que se encontrou com o ativista por contra própria. Ele disse que se oferece para pedir o perdão presidencial a Assange, caso este revele como conseguiu os e-mails.

Segundo o ex-juiz espanhol Baltasar Garzón, que também faz parte da defesa de Assange, funcionários de Trump teriam tentado pressionar o ativista para beneficiar o presidente.

—Em agosto de 2017, a equipe deTrumptent ou pressionar Assa ng epa raque dissesse coisas que favoreceriam o presidente.Quando e lese negou a fazer isso, foi acusado e teve o pedido de extradição emitido, além de se tornar alvo de um mandado de prisão internacional —disse Garzón.