O ESTADO DE S.PAULO – 27/02/2020

Meio século antes de o presidente Barack Obama ordenar a restauração de todas as relações diplomáticas com Cuba, em 2014, Jean Daniel, jornalista francês em missão secreta a Havana no outono de 1963, entregou uma proposta do presidente John F. Kennedy a Fidel Castro.


Era uma oferta para tentar uma aproximação. Apesar da desconfiança e dos sentimentos à flor da pele desde a crise dos mísseis cubanos, que quase havia mergulhado o mundo na guerra nuclear um ano antes, Daniel, confidente de líderes políticos de muitas capitais durante a Guerra Fria, encontrou um Castro surpreendentemente – ainda que cautelosamente – receptivo à abertura de Kennedy.

Três dias depois – 22 de novembro de 1963 – durante o almoço no refúgio à beira-mar de Castro, na praia de Varadero, eles ainda estavam discutindo a oferta quando o telefone tocou com notícias urgentes. Castro, líder cubano desde 1959, atendeu. “Herido?”, disse ele. “Muy gravemente?” (Ferido? Muito gravemente?)

Daniel – que morreu no dia 19, aos 99 anos, em sua casa em Paris, de acordo com L’Obs, a revista semanal de esquerda cofundada por ele – lembrou a cena dramática com Castro em um artigo na New Republic, dias depois do ocorrido.

“Ele voltou, sentou-se e repetiu três vezes as palavras: ‘És una mala noticia’ (É uma notícia ruim)”. Eles sintonizaram uma estação de rádio de Miami enquanto os primeiros relatos vinham de Dallas. Daniel os parafraseou: “Kennedy foi ferido na cabeça; perseguição do assassino; assassinato de um policial; finalmente o anúncio fatal: o presidente Kennedy está morto”. Ambos souberam de imediato que a tentativa de aproximação havia morrido com o presidente. “Então Fidel se levantou”, contou Daniel, “e me disse: ‘Tudo mudou. Tudo vai mudar’”.

Daniel – que se definia como humanista judeu e esquerdista não comunista – foi um dos principais jornalistas intelectuais da França, amigo dos filósofos e escritores Jean-Paul Sartre, que rejeitou seu Prêmio Nobel de Literatura em 1964, e Albert Camus, que aceitou o seu em 1957. A exemplo de Camus, Daniel nasceu na Argélia.

Na França, onde as notícias se confundem com as opiniões e os jornais geralmente relatam e interpretam eventos com algum viés político ou cultural, Daniel usou o jornalismo como um meio de defender causas. Ele também teve influência sobre os altos círculos do governo. Era amigo de David Ben-Gurion, o sionista que se tornou o primeiro-ministro fundador de Israel em 1948 e, durante 60 anos, apoiou os interesses israelenses.

Como correspondente em Argel, Daniel apoiou a guerra de independência frente ao colonialismo francês. Mas também condenou a tortura e as atrocidades de ambos os lados, as quais continuaram por décadas depois da brutal guerra de seis anos formalmente encerrada com a independência da Argélia, em 1962. Daniel era próximo de Ahmed Ben Bella, o revolucionário que se tornou o primeiro presidente do país em 1963.

Em 1964, Daniel cofundou o Le Nouvel Observateur, uma reencarnação da revista de esquerda France Observateur. Mais tarde, o Le Nouvel Observateur foi vendido e rebatizado como L’Obs. Sob sua direção por 50 anos, tornou-se o principal periódico semanal da França, com notícias e comentários políticos, econômicos e culturais. Seus editoriais se opunham ao colonialismo e às ditaduras, e abrangiam política, literatura, teologia e filosofia.

Jean Daniel Bensaïd nasceu em Blida, em 21 de julho de 1920. Seu pai, Jules, tinha um moinho de farinha. Quando jovem, Daniel se mudou para a França, estudou filosofia na Sorbonne e se alistou nas Forças Francesas Livres durante a 2.ª Guerra. Ele lutou na Normandia, em Paris e na Alsácia. Ele não apenas relatou alguns dos principais conflitos de seu tempo – a guerra franco-argelina, o Congo, a Guerra Fria, a questão Israel-Palestina –, mas ganhou a confiança e o respeito de estadistas sem sacrificar sua independência. Daniel se casou com Michèle Bancilhon em 1966. Ele deixa a viúva e também a filha, Sara Daniel, repórter do L´Obs./