O GLOBO – 03/03/2020

CORA RÓNAI 

No já muito longínquo ano de 1987 comprei um computador pessoal. Por causa da reserva de mercado, uma legislação bizarra que irmanava a esquerda e os militares num mesmo desejo de atraso, tive que recorrer a um executivo de fronteira, eufemismo pelo qual eram conhecidas as pessoas que traziam placas, teclados, monitores e gabinetes por baixo dos panos (ninguém no universo PC usava mouse).

Os contrabandistas traziam o hardware, e o software pirateávamos entre amigos, fazendo encontros muito animados sempre que chegava alguma novidade. Era assim, às margens da lei, que a informática se desenvolvia no Brasil daqueles tempos.


Foi uma época de aventuras e de grandes camaradagens. Todos estávamos descobrindo juntos como usar aquelas máquinas, e o que fazer com elas. A informação circulava na medida do possível, entre os primeiros BBS, boletins eletrônicos, e duas ou três publicações heroicas que chegavam às bancas graças à teimosia de seus editores. Também usávamos um aparelho chamado “telefone”, hoje quase extinto. Lembrem-se de que não havia essa internet que conhecemos hoje, e livros e revistas importados eram caríssimos.

Eu sentia muita falta de ler sobre o que estava acontecendo, e cheguei à conclusão de que continuaria sentindo se não me sentasse e escrevesse eu mesma, porque ninguém de fora da tribo estava prestando a menor atenção.

Eu trabalhava no Jornal do Brasil, e consegui convencer Marcos Sá Correa, o chefe de redação, de que algo novo estava no ar. Ganhei uma coluna em que ninguém punha muita fé, e que ora saía às segundas, ora às terças, ora na Economia, ora na Internacional, às vezes quase exilada entre os classificados. Havia semanas em que nem a minha mãe descobria onde ela estava. Mas deu certo, e durante um bom tempo o “Circuito integrado” funcionou como uma espécie de boletim da comunidade.

Em 1991, Evandro Carlos de Andrade, que dirigia a redação de O GLOBO, me chamou para continuar o trabalho aqui —agora ampliado para todo um caderno de tecnologia, o “Informática etc.” Vim de armas, bagagens e… coluna. De lá para cá, toda semana, escrevi sobre a área, que cresceu vertiginosamente e mudou de forma radical o mundo em que vivemos. A própria área mudou. Os computadores que tanto nos empolgavam viraram linha branca e não têm mais graça nem mistério; desconectados, então, nem fazem mais sentido.

Agora, chegou o momento de dar adeus ao papel. Essa coluna sai daqui, desse jornal que você tem em mãos, e se transforma num blog, dentro do próprio GLOBO.

Contando por alto, foram cerca de 1.500 colunas impressas ao longo de 29 anos, algo como 800 mil palavras que, espero, vocês tenham lido com o mesmo prazer com que foram escritas.

Em tempo: a coluna do Segundo Caderno segue no papel, existindo “de pegar” todas as quintas-feiras.