O ESTADO DE S. PAULO – 08/03/2020
Ninguém entra mais na redação do Washington Post, em Washington, sem se identificar, ter sua foto e documentos registrados. O visitante é recebido no hall do elevador pela pessoa com quem vai se reunir. “Sem o crachá dessa pessoa, não se consegue acesso à redação ou a qualquer sala”, relatou Cristina Tardáguila, diretora-adjunta da International Fact Checking Network.
Segundo ela, a direção do Post suspendeu os tours pelo novo prédio do jornal. “Os pouquíssimo que são feitos visitam quatro pontos predeterminados da redação e só podem fotografar dois deles (paredes com frases e prêmios Pulitzer). O vai e vem na redação ficou restrito a funcionários do jornal.” Tudo seria reação à ação do Projeto Veritas.
Não é só o jornal americano – vencedor do Pulitzer em 2018 com uma reportagem que desvendou uma armadilha do Veritas contra seus jornalistas – que se protege contra a ação do grupo. No Brasil, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) também tomou providências.
O homem por trás do Veritas é James O’Keefe, que diz mostrar o que chama de desonestidade de corporações de mídia, as tendências políticas de jornalistas e ações secretas de big techs, – gigantes digitais como Facebook, Google e Twitter –, além da corrupção de políticos e de organizações não governamentais identificados com causas “progressistas”.
O projeto é uma entidade sem fins lucrativos, sustentada por doações de instituições conservadoras. Em 2017, o grupo tentou enganar jornalistas do Washington Post plantando uma falsa testemunha – Jaime Phillips – contra um candidato republicano ao Senado no Alabama, aliado de Donald Trump. O político era investigado em razão de acusações de assédio sexual.
Phillips dizia ter sido vítima do político e tentou gravar os jornalistas. O’Keefe afirmou na época que sua intenção não era plantar uma história falsa ou desmoralizar as vítimas do candidato (sete mulheres o acusavam), mas forçar os jornalistas e emitir opiniões políticas. “Esse é um bom exemplo de como a imprensa deve agir. O mau exemplo é o caso do repórter David Wright”, disse Marcelo Träsel, da Abraji. Wright foi afastado pela rede de TV ABC após conversas suas sobre política terem sido divulgadas pelo Veritas.