O ESTADO DE S.PAULO – 19/03/2020

Eliane Cantanhêde

O presidente Jair Bolsonaro usou a primeira entrevista coletiva sobre a profunda crise do País e do mundo para fazer o que faz melhor: política, autopromoção, com meias-verdades em meio a algumas puras mentiras. Enquanto os ministros falavam à população, Bolsonaro dirigia-se à tropa bolsonarista que teme perder.

Na questão central, sobre a liderança do chefe de Estado e o exemplo que precisa dar à sociedade, o presidente voltou a fingir que o grande problema de seu contato com manifestantes, no domingo, foi o risco de ele se contaminar.

O presidente também classificou manifestações como “expressões da democracia” e aproveitou para convocar apoiadores para fazer panelaço pró-governo e para praticar seu esporte favorito: atacar e tentar desqualificar a mídia.

Depois de voltar a negar todas as evidências e dizer que os vídeos de convocação da manifestação do dia 15 divulgados pela colunista Vera Magalhães eram de 2015, o presidente se esqueceu de que tornou a estimular o movimento no sábado, 7/3. Jurou que nunca convocara manifestação nenhuma, assim como jurou que nunca atacou o Congresso. Há um fosso entre a realidade e o que o presidente diz.

Bolsonaro reclamou que o brasileiro não tem cultura de prevenção e pediu a todos para seguirem “os preceitos” do Ministério da Saúde. Só que ele próprio nem previu ou preveniu coisa nenhuma, insistindo que o coronavírus era “fantasia” e “histeria” da mídia, nem seguiu os “preceitos” das autoridades de saúde ao sair do isolamento e colocar apoiadores em risco. É a tal história: “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. O presidente continua numa realidade paralela.