O GLOBO – 21/03/2020

As tensões entre Estados Unidose China relacionadas à pandemia do novo coronavírus continuaram a se acirrar ontem, com Pequim e Washington trocando acusações na imprensa e em redes sociais, e o presidente Donald Trump adaptando um discurso para criticar a China.

Em uma entrevista à Fox News, emissora identificada com Trump, o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, disse que Pequim “perdeu dias valiosos” depois de identificar anova doença, permitindo que “centenas de milhares” de pessoas deixassem acidade de Wuhan e viajassem para o exterior, incluindo a Itália. — O Partido Comunista Chinês não se saiu bem ecolocou inúmeras vidas em risco como resultado disso— afirmou Pompeo. A declaração do principal diplomata dos EUA despertou a irado governo chinês, que tem usado um tom enérgico para rebater acusações de negligência. Aporta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Hua Chunying, expressou sua raiva no Twitter e escreveu em inglês: “Pare de mentir! Como especialistas da OMS afirmaram, os esforços da China impediram centenas de milhares de casos de infecção .” Ela também observou que a China informou os Estados Unidos do novo surto de coronavírus em 3 de janeiro eque o Departamento de Estado dos EUA só alertou os americanos que estavam em Wuhan em 15 de janeiro.

Na quinta-feira, o presidente Donald Trump foi flagrado por Jabin Botsford, fotógrafo do Washington Post, com notas preparadas para um discurso na Casa Branca para a força-tarefa de combate à pandemia. No detalhe da fotografia, é possível ver que, onde estava escrito “vírus corona”, a palavra “corona” foi riscada e substituída por “chinês”. Estados Unidos e China travam uma disputa comercial, política, tecnológica e estratégica, que adquiriu nova profundidade diante da pandemia. Desde que, por meio de medidas duras, controlou o surto da doença em seu território, o governo chinês adotou uma intensa campanha de propaganda e relações públicas, oferecendo apoio material e técnico a outros países, como modo de se destacar como uma superpotência da saúde e de aumentar sua influência. Em contraposição a isso, os EUA não oferecem recursos significativos para seus aliados. Trump, no lugar disso,

tem usado uma retórica agressiva, muitas vezes acusada de racista, referindo-se, como o fez esta semana, ao novo coronavírus como “o vírus chinês”. A disputa entre os países envolveu a expulsão de uma dúzia de jornalistas americanos nesta semana. Pequim alegou retaliar limitações impostas por Washington a profissionais da mídia estatal chinesa. Em dezembro, os dois países concordaram em uma primeira fase de um acordo comercial, que reduz, sem eliminar completamente, tarifas impostas por Trump . A China também concordou em expandir em US$ 200 bilhões suas compras de bens e serviços dos EUA até 2022. A epidemia coloca este acordo em risco.