O GLOBO – 28/03/2020

EDITORIAL

O lançamento nas redes sociais de um vídeo soba chancelado governo federal como slogan “o Brasil não pode parar” reforça o discurso feito pelo presidente Bolsonaro na noite de terça-feira contra a indicação de médicos, incluindo a Organização Mundial da Saúde (OMS), para que as populações pratiquemo isolamentos oci alea quarentena, afim de conter a disseminação global da Covid-19. Confirma-se que o clássico mecanismo do aprendizado pela observação não tem sido usado no Planalto. Se a realidade factual fosse levada em conta, essa questão não existiria para o governo, tampouco inspiraria peças de manipulação política.

O tempo não para, e os fatos se sucedem, a despeito do desejo de autoridades. De acordo com as previsões do Ministério da Saúde e conforme o padrão seguido nos demais países, os casos de coronavírus no Brasil começam a acelerar e assim ficarão durante algum período. Acurvada epidemia está na fase de“subir aladeira ”, dizemos técnicos.

Segundo o secretário de Saúde de São Paulo, José Henrique Germann, o número de mortes pela Covid-19 no estado subiu para 68 ontem, um óbito a cada duas horas e 20 minutos. O total de casos confirmados era de 1.223, um acréscimo de 14% em relação a quinta. O tempo de ascensão e o ângulo da subida dependerão das precauções tomadas pelas pessoas, razão direta da consciência e empenho dascoincidência infeliz para o presidente, o prefeito de Mi lã o, Giuseppe Sala, liberou ontem um vídeo em que pede desculpas por haver apoiado a campanha “Milão não para”, talvez umadas fontes inspiradoras dosPlanalto. A Lombardia, região do Norte italiano em ques e localiza Milão, amais rica cida dedo país, contabilizava 250 contaminados pela Covid-19 e 12 mortos. Empresários preocupados coma recessão que seria agravada pelos protocolos médicos ajudaram a financiar a campanha. O coronavírus se alastrou pela Lombardia, e até ontem havia contaminado 37.298 pessoas e causado 5.402 mortes, uma devastação. Que deverá contaminar a carreira política do prefeito e outros. A Itália como um todo ultrapassou a China, o berço da pandemia, com 86.498 casos, 5 mil a mais. Por enquanto. Bateu outro recorde ontem: quase mil mortos em um dia (919).

É uma perigosa falácia a ideia de que se pode liberar os jovens para o trabalho e manter o idosos protegidos em quarentena. Como na Itália, devido a razões diferentes, as diversas gerações das famílias vivem juntas. Em um caso, razões culturais; no outro, financeiras. Mesmo que assim não seja, a China demonstrou, é criminoso não isolar toda a população. Um governante que desdenhou das precauções contra o coronavírus, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, testou positivo e se isolou. Mas antes deve ter ouvido conselheiros que o levaram a recuar no “isolamento vertical” (só os grupos de risco). Até decretou quarentena. Mas hoje em Brasília médicos e cientistas não são ouvidos.