O GLOBO – 29/03/2020
EDITORIAL
A crise mundial tem origem na saúde, atinge a economia de maneira assustadora e provoca desdobramentos políticos sérios. Global, a desestabilização afeta, de um amaneira ou outra, projetos de poderem todos os continentes. Os políticos tendem ase utilizar de fatos como a pandemia, um evento já histórico, para atingir objetivos próprios. Se o regime não contar com freios e contrapesos, fica mais fácil este tipo de manipulação pelos donos do poder. Mesmo ose leitos tendem abuscar algum proveito. É da natureza da política. Cabe à democracia acionar os anticorpos.
A teocracia persa, dos aiatolás, uma ditadura, usou o assassinato do general Qassem Soleimani, pelos EUA, por ordem de Trump, para se fortalecer junto à população. Em tempos difíceis devido às dificuldades causadas na vida dos iranianos pelo endurecimento das sanções econômicas americanas, os aiatolás e seus radicais aproveitaram afigura do inimigo externo para unir ao máximo a nação em torno do regime e de seu líder supremo, Ali Khamenei. É um velho truque. Mas chegou o coronavírus, a ditadura teocrática resistiu a praticar quarentena, o isolamento social, e a população tem sido castigada. Até meados da semana passada, havia mais de dois mil mortos, o número mais elevado no Oriente Médio. O vírus deixará como sequela o aumento da impopularidade do governo. O impacto na Europa da necessidade de fechamento de fronteiras favorece as forças xenófobas do nacional-populismo de extrema direita. As exigências impostas por este coronavírus levam governos a determinar a permanência das pessoas em casa, e também são aproveitadas com objetivos políticos.
Por exemplo, o homem forte da Hungria, o primeiro-ministro Viktor Orbán, ultranacionalista de extrema direita, tenta que o Legislativo prorrogue indefinidamente o “estado de emergência”, estabelecido no dia 11. O argumento é o coronavírus. Orbán quer mais poderes especiais para enfrentar a Covid-19. Deseja decretar a prisão por cinco anos de quem difundir “informação falsa” sobre a epidemia, e por oito de quem prejudicar os esforços para contê-la. Como a Hungria aindaémemb roda União Europeia( UE ), Bruxelas reclamada proposta, a ser utilizada para censurara imprensa, não há dúvida.
Orbán foi convidado especial para a posse de Jair Bolsonaro, por afinidades ideológicas. O presidente brasileiro, assim como o húngaro, também se aproveito uda epidemia: baixou medida provisória que limitava a amplitude da Leide Acessoà Informação, dispositivo essencial para que a imprensa e a sociedade possam desarquivar fatos que os governos não desejam revelar.
Foi usado o argumento de que servidores públicos estão em isolamento. E raveta doo acesso específico a informações relacionadas à saúde( coronavírus ). AMP foi suspensa pelo ministro do Supremo Alexandre de Moraes. Em boa hora. O plenário do STF dará a palavra final. É provável que isso não ocorresse em Budapeste, onde Orbán despacha com grande poder ejá controla a Justiça.