O GLOBO – 02/04/2020
EDITORIAL
Em pronunciamento à nação, na noite de terça-feira, o presidente Jair Bolsonaro moderou o tom e indicou a necessária união diante de uma crise sem precedentes.
Em um ano e três meses de governo, o presidente Bolsonaro criou a imagem de alguém imprevisível, capaz de acertadas escolhas administrativase desastradas atitudes políticas. Em condições normais, a característicajá seria causa dep reocupações coma estabilidade da gestão de um modo geral, com implicações no relacionamento com os demais poderes da República, principalmente o Legislativo, além de afetara economia, por alterar expectativas de agentes econômicos. Em uma crise mundial grave iniciada por uma pandemia, a imprevisibilidade presidencial setor naum a fonte de ruídos institucionais que precisam ser atenuados neste momento especialmente sério.
Bolsonaro reconhece que está diante “do maior desafio da nossa geração ”. Essas oscilações decorrentes do seu estilo político e pessoal, se em condições normais são inadequadas, agora muito mais —talvez ouça conselhos sensatos neste sentido de seus melhores assessores no Planalto. Seja como for, na noite de terça, o presidente encontrou seu melhor tom no pronunciamento que fez em cadeia nacional.
Não conseguiu deixar de se referir às declarações do diretor-geral da Organização Mundial da Saúde( OMS ), Te dr osGheb reyes us,qu eu saram alnas redes sociais na tentativa de provar atese insustentável de que o isolamento social é um erro, mas não a defendeu abertamente. Na manhã seguinte, ontem, difundiu um vídeo fake que mostraria efeitos do desabastecimento na Ceasa de Belo Horizonte. A farsa terminou sendo desmascarada, e o vídeo, tirado do ar. Considere-se que se tratou de um tropeço que poderá ajudá-loa filtrar os assessor esmais próximos.
O presidente encontrou o tom correto no fim daquele pronunciamento, depois de se solidarizar e agradecer o empenho e sacrifício dos profissionais da saúde, da área de segurança, dos caminhoneiros — da sua base eleitoral, uma categoria estratégica —, todos os trabalhadores dos serviços essenciais e produtores rurais. A mensagem é vital para todos, seu governo e a população:
“Com esse espírito, agradeço e reafirmo a importância da colaboração e a necessária união de todos num grande pacto para preservação da vida e dos empregos. Parlamento, Judiciário, governadores, prefeitos e sociedade”.
Estaéaqu estão-chave. A articulação entre ministérios que passou a ser exposta nas entrevistas à tarde para tratar do coronavírus resume bem um modelo de cooperação que precisas era dotado. O cer toé que acrise econômica e social que cresce no horizonte próximo, de proporções jamais vistas, não será superada sem união — de partidos, de organizações sociais, de diversas entidades de representação etc. —, além dos demais poderes republicanos, Judiciário e Legislativo. O aceno do presidente à Federação, a governadores e prefeitos, tem grande alcance, porque, em sã consciência, União, estadose municípios precisarão executar de forma coordenada e pactuada o programa de reconstrução nacional que virá no rastro do coronavírus. Ninguém se erguerá sozinho. Bolsonaro precisa recuperar e manter esta visão.