O GLOBO – 04/04/2020
BERNARDO MELLO E MARLEN COUTO
Redes sociais como Twitter, Facebook e Instagram têm apagado publicações de lideranças políticas e religiosas acusadas de disseminar informações enganosas sobre o novo coronavírus. Segundo o Twitter, que deletou no último domingo dois vídeos publicados pelo presidente Jair Bolsonaro durante um passeio por cidades-satélite de Brasília, cerca de 1,1 mil mensagens de usuários de todo o mundo já foram apagadas desde o último dia 18, quando a plataforma modificou sua política de uso para incluir um veto a conteúdos “que forem eventualmente contra informações de saúde pública orientadas por fontes oficiais”.
Nos vídeos excluídos, Bolsonaro aparecia em conversas com trabalhadores informais e transeuntes nas ruas do Distrito Federal, enquanto fazia críticas às medidas de isolamento social chanceladas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Ministério da Saúde de seu próprio governo.
Foi o segundo caso em que um chefe de Estado teve publicações apagadas pelo Twitter por causa da nova regra da plataforma, destinada a coibir conteúdos que, de acordo com a rede social, “possam colocar as pessoas em maior risco de transmitir Covid-19”. No último dia 25, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, teve um tuíte excluído por defender o “uso de plantas medicinais” no combate ao coronavírus. A OMS e demais autoridades de saúde pública ainda não identificaram qualquer medicamento com eficácia cientificamente comprovada contra o vírus. Em entrevista coletiva, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, ironizou ontem as publicações de notícias falsas em redes sociais, sem especificar a que se referia. —Aquele que divulga fake news, em vez de divulgar dez por dia, divulgue só duas,
YURI CORTEZ/AFP/14-2-2020
ALEXANDRE CASSIANO par amatara necessidade. Todo mundo precisa ajudar, até aqueles que divulgamfakenews— afirmou. Assim como Maduro, seu desafeto político, Bolsonaro fez uma afirmação sem lastro científico durante o passeio por Brasília, quando declarou que o medicamento hidroxicloroquina“está dando certo em tudo quanto é lugar” no combate ao coronavírus. O vídeo foi excluído, além do Twitter, por Facebook e Instagram. Dois dias depois, em pronunciamento em rede nacional, Bolsonaro reconheceu que “ainda não existe vacina, nem remédio com eficiência” comprovada.
IMUNIDADE NA “PORCARIA”
Procurado pelo GLOBO, o Facebook e o Instagram informaram que as políticas de conteúdo de ambas as plataformas “não permitem publicação ou compartilhamento de conteúdo que traga desinformação capaz de causar danos reais às pessoas, incluindo alegações sobre curas de Covid-19”. O Facebook já removeu, em anos anteriores, publicações enganosas sobre doenças como sarampo e poliomielite, por entender que a manutenção das mensagens representava riscos à saúde pública. Além das postagens de Bolsonaro e Maduro, o Twitter também excluiu uma mensagem publicada pelo ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani, um dos principais conselheiros do presidente dos EUA, Donald Trump. Em publicação no último dia 27, Giuliani também anunciou uma suposta eficiência da cloroquina. O Twitter informou, após a publicação com conteúdo enganoso, ter bloqueado temporariamente a conta de Giuliani — uma espécie de “alerta” feito pela rede social para que o usuário remova a publicação falsa. Em sua política de uso, o Twitter inclui na lista de postagens passíveis de remoção aquelas que contenham uma “negação das recomendações de autoridades de saúde locais ou globais”, incluindo conteúdos que sinalizem opiniões como “o distanciamento social não é eficaz”. Na última quinta-feira, o pastor Silas Malafaia teve sete tuítes excluídos pela rede social, alguns contendo vídeos nos quais fazia críticas à quarentena implementada por governadores e afirmava que a população mais pobre supostamente já seria“imunizada” ao vírus, por estar“sujeitaa tanta porcaria” no dia adia. As publicações também foram excluídas no YouTube e no Facebook, segundo Malafaia. O Twitter também apagou, no último mês, postagens do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) que traziam vídeos descontextualizados do médico Drauzio V arella, numa tentativa de minimizar o impacto do novo coronavírus. A plataforma informou que também considera enganosas quaisquer publicações que procurem “manipular as pessoas para um determinado comportamento”.
ACENO À BASE
Um levantamento feito pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (DAPP) aponta que esse tipo de resposta das redes sociais mobilizou grupos que têm se mantido, desde o início da pandemia, isolados por seu alinhamento às posições de Bolsonaro na crise. Das cerca de 300 mil postagens no Twitter sobre remoções de conteúdo, identificadas pelo DAPP, 70% partiram de perfis ligados a um nicho de influenciadores de extrema direita, como o ideólogo Olavo de Carvalho — que também teve um vídeo deletado pelo YouTube, no dia 23, por negar a existência de mortes decorrentes do novo coronavírus. O estudo aponta ainda que o pico de manifestações ocorreu no último domingo, data em que os vídeos de Bolsonaro foram deletados. Questionado sobre o assunto, o presidente afirmou que não discutiria as remoções de conteúdo e disse que o Twitter é uma “empresa privada”. —Bol sonar otemap reocupação de acenaràp arte mais inflamada do eleitorado, que votou nele em 2018, eque espera esse ti pode manifestação radicalizada— analisa o cientista político da PUC-Rio Ricardo Ismael.
CRISE DE CIÚMES
Mandetta tem mesmo muita paciência para aturar Bolsonaro. Não bastassem as declarações absurdas contra o isolamento social, ele passou a atacar o seu ministro em entrevistas e em lives para rede social. Mandetta já sabia que o seu chefe é um
homem inseguro e meio abobado, mas descobriu agora os ciúmes doentios que o capitão tem pelo sucesso alheio. Por ser raso intelectualmente, Bolsonaro não aceita quem pensa direito e se expressa bem. Diante disso, o presidente produziu a frase mais ridícula desde o início da crise sanitária: “Mandetta quer fazer valer a vontade dele…”. Esqueceu que a vontade do ministro da Saúde é a vontade da OMS, dos médicos, dos sanitaristas e dos infectologistas. É a vontade da ciência. Por isso, Mandetta tem o apoio de 76% dos brasileiros, contra 33% de Bolsonaro, segundo a pesquisa Datafolha divulgada ontem.
OS FANÁTICOS
Eles formam um grupo cada vez menor, mas muito barulhento, até mesmo pela sua natureza. São os fanáticos, aqueles que não conseguem enxergar, não entendem o que ouvem e repetem de maneira mecânica, agressiva e extravagante as barbaridades que seus líderes transmitem pelas redes sociais. O caso mais visível de fanático idiotizado foi visto esta semana no Alvorada. Trata-se da mulher que se disse professora e que pediu a Bolsonaro uma intervenção militar para permitir que as pessoas voltassem a trabalhar. Pior que isso, muito pior, foi o presidente distribuir a fala da mulher em rede social. Tudo bem ela não entender como funciona a República e desconhecer os ritos da democracia, ela é uma fanática. Mas o presidente cometeu um crime ao referendar sua fala.
O COMANDANTE DIZ NÃO
Tentando trazer pelo menos um governador para o seu lado na campanha contra o isolamento, Bolsonaro tem pressionado o governador de Santa Catarina, o comandante Moisés, ex-bombeiro. Já mandou recado pelos filhos, por lideranças políticas locais e por empresários do estado, como o dono da Havan. Ele mesmo ligou exortando Moisés a suspender o isolamento usando o velho argumento “você se elegeu graças a mim”. Mas não colou. Até aqui o comandante tem dito não.
O PIOR QUADRO
Não há quadro na Praça dos Três Poderes ou na Esplanada dos Ministérios mais fraco do que Jair Bolsonaro. Todos os problemas que são levados ao seu gabinete saem de lá maiores do que entraram. O presidente raramente acerta, e quando o faz, cuida para, em menos de 24 horas, destruir o acerto. Nem Weintraub, Damares ou Araújo se comparam a ele. São gênios diante de sua excelência.
FAÇAM O QUE EU DIGO
Apenas Jair Bolsonaro deseduca mais do que o formato das entrevistas organizadas no Palácio do Planalto para divulgar os dados do combate ao coronavírus. Os ministros que falam estão sempre colados uns nos outros, não há nunca o distanciamento de dois metros que a OMS recomenda. Não bastasse a proximidade social, uns cochicham com outros e se tocam desnecessariamente. E os garçons se debruçam pelas laterais dos ministros para trocar os copos de água gelada. Uma festa.
A CHINA RECOLHE OS SEUS
A embaixada da China em Brasília está recolhendo para dentro do prédio da chancelaria todos os funcionários chineses sediados na capital. Vão morar dentro das instalações oficiais até que os ânimos melhorem na cidade. O chineses estão sendo objeto de ofensas e agressões verbais nas ruas. Funcionários brasileiros da embaixada dizem que o rancor com a China deve-se aos ataques feitos por Eduardo Bolsonaro, o Bananinha.
RESPIRADOR ARTIFICIAL
Se a indústria não consegue dar conta da demanda, se a China ignora e não atende os pedidos do Brasil, por que não usar a criatividade? Um grupo de profissionais e professores de Medicina, Engenharia e Informática da Universidade Federal de Itajubá desmontou um velho respirador mecânico, fabricado no Brasil nos anos 1950, e copiou digitalmente todos os seus componentes. Agora, sua transcrição digital pode ser lida por impressoras 3D e reproduzidas em escala. Aplausos.
CLAUSTROFOBIA GLOBAL
Meu amigo Evaristo não gosta de elevador. Ele os evita sempre que pode e vai de escada quando o andar é mais baixo. Até o oitavo ele sobe de escada numa boa. Uma vez subiu a pé 22 andares para chegar a um escritório em um prédio velho, com elevador de porta sanfonada, no Centro. Evaristo tem claustrofobia. Esse sentimento é o que assalta o mundo inteiro nesses dias de coronavírus. Além de manter a maioria isolada em casa, a doença ataca as vias respiratórias do paciente e o deixa sem ar. O pavor do claustrofóbico, dono de um sintoma que causa medo mórbido de espaços fechados, não é tanto de ficar em casa, mas sim de perder o ar.