O GLOBO – 09/04/2020
Além dos desafios atuais de manter empregos e fazer chegar a ajuda aos que mais precisam, a crise do coronavírus vai exigir diálogo e solidariedade, para se chegar a um país menos desigual, mostrou o seminário “E agora, Brasil?”.
O Brasil que sairá da crise do coronavírus terá que vencer uma recessão profunda e duradoura sob cenário externo adverso emissão fiscal redobrada. Serápre ciso fugirà tentação de transformarem permanentes os gastos emergenciais que a pandemia exige, mas superando as deficiências em matéria de saúde, saneamento e inclusão que ela escancara. O desafio extrapola, porém, os limites da economia, exigindo transformações no próprio tecido social: empresas mais solidárias; uma classe política mais madura e aberta ao diálogo; um país menos desigual.
Essaéa rota traçada no seminário“E agora, Brasil ?”, que reuniu esta semana em debate virtual o secretário do Tesouro, Mansueto Almeida, a economista Zeina Latif e Luiza Helena Trajano, presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza. O evento foi realizado pelos jornais O GLOBO e Valor Econômico, com patrocínio do Sistema Comércio através da CNC, do Sesc, do
Senac e de suas Federações.
Segundo Zeina, as discussões sobre o futuro partem de passos em falso no passado. A crise ressalta mazelas de um país desigual, com saneamento escasso e informalidade que abarca 40% dos trabalhadores, dificultando a implementação de medidas de socorro. O próprio Mansueto admite que levar o auxílio emergencial de R$ 600 à população será “um esforço de guerra”.
Para piorar, argumenta Zeina, o Brasil repetiu e potencializou os erros de seus pares ocidentais na reação à pandemia. Ignorou alertas externos e internos e levou semanas para impôr isolamento:
—O Ocidente inteiro errou, tirou poucas lições do que acontecia no Oriente. Mas o Brasil errou mais, elevando o custo econômico e dificultando a definição de estratégias.
O custo econômico vai ser alto, prevê ela. A parada foi brusca, terá consequências duradouras e será agravada por um mundo mais fechado. Mas a consultora defende que, além de medidas econômicas, mudanças sociais serão necessárias:
— Não somos uma sociedadecoesa,queolhaparaopróximo. O sentimento de solidariedade tem que perpassar nossas relações. Eliminar oportunismos é uma forma de garantir uma transição melhor do isolamento, porque o movimento não será tranquilo.
IMPORTÂNCIA DAS REFORMAS
Para Mansueto, uma lição da crise é a necessidade das reformas. Foi graças àquelas já feitas que “não sairemos quebrados desta crise”, observa, citando a importância dos juros baixos para financiar um déficit temporariamente maior do setor público, podendo chegar a R$ 500 bilhões este ano.
Afinal,dizosecretário,oenvelhecimento rápido da população brasileira exigirá mais gastos com o Sistema Único de Saúde (SUS), que já não corresponde às necessidades. Ele defende mudanças constitucionais para tornar esse investimento mais eficiente, como a retirada de percentuais mínimos de investimento, que, apesar de meritórios, criam uma amarra.
Mas Mansueto concorda com Zeina que a atual crise reforça a necessidade de maturidade política e solidariedade social:
—Além de reformas, vamos precisar de muito diálogo e solidariedade. Depois da Segunda Guerra, os países se reconstruíram e montaram uma rede de assistência social. Como não faremos no século XXI?
Esta crise, de fato, coloca as outras em perspectiva.
— Ninguém pensou que um dia a gente viveria algo parecido. A crise do governo Collor foi 20% do que vivemos hoje — comenta Luiza Trajano, que era diretora executiva do Magazine Luiza em 1990, quando o governo confiscou as cadernetas de poupança dos brasileiros.
Se a turbulência atual é inédita, também são novas as ferramentas para fazer frente a ela. O Magazine Luiza adotou estratégias para aprofundar a digitalização do negócio.
—Temos de buscar saídas. Lógico que vamos voltar, mas não vamos ser os mesmos. Nada vai ser o mesmo. Veja os nossos custos fixos hoje. Cortamos tudo o que dava para cortar que não sejam pessoas, e vimos como vender o máximo pela internet —conta Luiza.
A colunista do GLOBO Míriam Leitão, uma das mediadoras do encontro, acredita que a crise do coronavírus é aquela que vai passar o país a limpo:
— Vamos pensar no que a gente fez e nos ajudou, como adotar a democracia, acabar com a inflação e ter contas públicas transparentes. Mas também no que não fizemos e vamos ter que fazer. Ao longo dos anos, o governo deixou muita gente para trás.
Para o editor executivo e colunista do Valor Econômico Cristiano Romero, que também mediou o debate, sairemos mais pobres desta crise, mas, talvez, conscientes de que não podemos ser tão desiguais:
—Desse momento vulnerável e ao mesmo tempo reflexivo emergirá uma sociedade mais fraterna e preocupada com todos os que nela vivem.
“Não somos uma sociedade coesa, que olha para o próximo. O sentimento de solidariedade tem que perpassar nossas relações”
Zeina Latif, economista
“Além de reformas, vamos precisar de muito diálogo e solidariedade”
Mansueto Almeida,
secretário do Tesouro
“Temos de buscar saídas. Vamos voltar, mas nada vai ser o mesmo”
Luiza Helena Trajano,
presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza