O GLOBO – 11/04/2020

EURÍPEDES ALCÂNTARA 

A história ajuda a evitar a tentação de decidir por nós mesmos ou pela opinião de políticos se a hidroxicloroquina deve ser ministrada a todos os pacientes portadores do novo coronavírus. O encontro da química com o organismo humano tem mistérios. Em uma mesma semana em 1897, na Alemanha, o químico alemão Felix Hoffmann criou duas drogas que fariam história por razões diversas: a aspirina e a heroína. A Bayer, onde Hoffmann trabalhava, encantou-se com a eficiência da heroína na supressão da tosse e no alívio das dores. Em pouco tempo, a heroína era um evento estrondoso, sendo receitada livremente até para bebês. Enquanto isso, a aspirina, sob suspeita de fazer mal ao coração, enfrentava resistência no meio médico. A aspirina firmou-se como um analgésico bastante seguro, tomada sem receita médica, enquanto a heroína, por ser tóxica e viciar seus usuários, teve sua venda banida a partir de 1930 na maioria dos países, sendo hoje restrita ao narcotráfico.


Vai ser interessante acompanhar a história da hidroxicloroquina daqui para frente. Por enquanto, o que se sabe com segurança sobre ela e outras formulações parecidas é que têm sido usadas há décadas no tratamento de doenças autoimunes crônicas, como o lúpus, e na diminuição dos sintomas da malária. O que se sabe com certeza sobre seus efeitos sobre pessoas contaminadas pelo novo coronavírus?

Tudo que podemos afirmar é quena opinião dos partidários do americano Donald Trump e dos apoiadores do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, a hidroxicloroquina é um milagre capaz de salvar milhões de vidas e de debelar rapidamente a atual pandemia de Covid-19. Sabemos também a opinião de quem se opõe a Trump e Bolsonaro. Para essas pessoas, a hidroxicloroquina é apenas uma quimera com que os dois mandatários tentam iludir o povo de modo a esconder falhas grosseiras na contenção da doença. Não faltam opiniões contra e a favor da hidroxicloroquina. Pena que entre opiniões e a realidade, muitas vezes, não existam vasos comunicantes.

É razoável que em 1897 a ciência tenha atestado que a heroína era segura e a aspirina, um perigo. Eram outros tempos. Havia pouco que Ignaz Semmelweis tinha demonstrado que os cirurgiões podiam evitar infecções graves nos pacientes simplesmente lavando as mãos antes das operações. Cientistas testavam soros imunizantes injetando-os no próprio corpo. Pasteur tinha acabado de desenvolver, em 1885, a primeira vacina, contra a raiva. Mas essa dúvida toda agora, depois do Projeto Genoma,

das conquistas que fizeram do câncer, antes fatal, uma doença crônica, das operações complexas por robôs? Avançados que estamos no século XXI, ainda temos que assistir atônitos a políticos em guerra opinativa sobre a eficácia de uma droga contra uma virose? Tem razão quem vê por trás disso teorias conspiratórias, manipulações e grandes esquemas. Mas a culpa não é dos médicos. Nem da Ciência. O novo coronavírus é um inimigo desconhecido. Chegam ao noticiário vindo de diversos hospitais do mundo, quase na mesma proporção, evidências contraditórias de que a hidroxicloroquina funciona, mas também de que ela é inócua. São relatados casos de pacientes que se curaram com hidroxicloroquina e de pacientes que morreram mesmo tratados com ela. São casos, ressaltese,depacientesque,alémdahidroxicloroquina, receberam uma dezena de outras medicações. Há relatos de pacientes com sintomas leves a quem foi ministrada exclusivamente a hidroxicloroquina e eles não precisaram ser hospitalizados? Sim, há. Como há relatos de infectados com sintomas leves medicados com hidroxicloroquina e ainda assim neles a doença evoluiu, exigindo cuidados intensivos. O que a população tem o direito de saber com toda a urgência é que estão sendo buscados tenazmente dados suficientes para que os médicos possam receitar hidroxicloroquina a pacientes com sintomas leves como parte do protocolo de combate ao novo coronavírus. A celebrar a iniciativa revelada pelo GLOBO na edição de quinta-feira passada, de uma coalizão de hospitais, entre eles o Albert Einstein, o Sírio-Libanês e o Oswaldo Cruz, de montar um estudo científico com 1.300 pacientes com o objetivo de responder a essa questão crucial. Começa-se fazer a luz.