O GLOBO – 11/04/2020
EURÍPEDES ALCÂNTARA
Vai ser interessante acompanhar a história da hidroxicloroquina daqui para frente. Por enquanto, o que se sabe com segurança sobre ela e outras formulações parecidas é que têm sido usadas há décadas no tratamento de doenças autoimunes crônicas, como o lúpus, e na diminuição dos sintomas da malária. O que se sabe com certeza sobre seus efeitos sobre pessoas contaminadas pelo novo coronavírus?
Tudo que podemos afirmar é quena opinião dos partidários do americano Donald Trump e dos apoiadores do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, a hidroxicloroquina é um milagre capaz de salvar milhões de vidas e de debelar rapidamente a atual pandemia de Covid-19. Sabemos também a opinião de quem se opõe a Trump e Bolsonaro. Para essas pessoas, a hidroxicloroquina é apenas uma quimera com que os dois mandatários tentam iludir o povo de modo a esconder falhas grosseiras na contenção da doença. Não faltam opiniões contra e a favor da hidroxicloroquina. Pena que entre opiniões e a realidade, muitas vezes, não existam vasos comunicantes.
É razoável que em 1897 a ciência tenha atestado que a heroína era segura e a aspirina, um perigo. Eram outros tempos. Havia pouco que Ignaz Semmelweis tinha demonstrado que os cirurgiões podiam evitar infecções graves nos pacientes simplesmente lavando as mãos antes das operações. Cientistas testavam soros imunizantes injetando-os no próprio corpo. Pasteur tinha acabado de desenvolver, em 1885, a primeira vacina, contra a raiva. Mas essa dúvida toda agora, depois do Projeto Genoma,
das conquistas que fizeram do câncer, antes fatal, uma doença crônica, das operações complexas por robôs? Avançados que estamos no século XXI, ainda temos que assistir atônitos a políticos em guerra opinativa sobre a eficácia de uma droga contra uma virose? Tem razão quem vê por trás disso teorias conspiratórias, manipulações e grandes esquemas. Mas a culpa não é dos médicos. Nem da Ciência. O novo coronavírus é um inimigo desconhecido. Chegam ao noticiário vindo de diversos hospitais do mundo, quase na mesma proporção, evidências contraditórias de que a hidroxicloroquina funciona, mas também de que ela é inócua. São relatados casos de pacientes que se curaram com hidroxicloroquina e de pacientes que morreram mesmo tratados com ela. São casos, ressaltese,depacientesque,