O GLOBO – 16/04/2020
A crise provocada pelo novo coronavírus abalou o mundo em um período de especial agitação nas ruas. Uma época em que os chilenos marchavam contra a selites; os coletes amarelos enfrentavam o governo na França; libaneses, a ordem sectária estabelecida; argelinos, o poder encarnado por Abdelaziz Bouteflika; e iraquianos, o desgoverno de seu país. Masto da essa expressãode raiva social foi freada pela pandemia.
O El Pais fez um raio-X desses protestos, revelando vários denominadores comuns: as manifestações migraram para a internet com algum dinamismo, massemo ecoou aforçadas ruas; incorporaram, ou estão em processo de fazê-lo, novos motivos derivados do gerenciamento da crise da saúde; e, na maioria das vezes, mantêm sua intenção de retornar quando o confinamento chegar ao fim.
Em Hong Kong, o coronavírus e suas demandas de distanciamento social têm mantido as mobilizações adormecidas, mas o descontentamento com as autoridades permanece intacto. Cada vez mais sólido, inclusive. Uma pesquisa realizada no final de março pelo Instituto de Pesquisa de Opinião Pública de Hong Kong mostrou que a porcentagem de entrevistados que pediam a demissão de Carrie Lam, chefe do governo local, havia aumentado de 57% em dezembro passado para 63%. O cenário atual dos protesto sé digital. Manifestantes optaram por transferir as demandas para o ambiente virtual.
TENSÃO PODE VOLTAR
Na Argélia, o Hirak, como é chamado em árabe o movimento antigoverno, suspendeu as manifestações em 20 de março, depois de 56 sextas-feiras consecutivas na rua. Os ativistas acordaram uma “trégua sanitária”. Os membros do movimento antigovernamental são muito ativos nas redes sociais e há uma grande desconfiança em relação às informações fornecidas pelo Estado sobre a Covid-19.
Na França, o coronavírus levou ao desemprego forçado e ao confinamento obrigatório. A crise também suspendeu o movimento dos coletes amarelos —já enfraquecido quando foram anunciadas as primeiras medidas de quarentena — e a resposta à reforma previdenciária, que agitou o país. Após meses de protestos, agora as ruas estão vazias. Mas a crise deixou evidente algumas fraturas sociais. A tensão, no momento congelada, pode reaparecer assim que as restrições forem levantadas.
Os protestos contra a classe política que eclodiram em 18 de outubro no Chile, em busca de melhorias nos serviços básicos, foram subitamente interrompidos pela pandemia.
—Assim que saírem da quarentena, as pessoas voltarão a se concentrar na praça em busca de dignidade —afirma o sociólogo Carlos Ruiz, da Universidade do Chile.
No Líbano, o medo do vírus em meio ao colapso econômico fez o que o Exército não fez em 150 dias: expulsar os manifestantes das ruas. A zaura (revolução, em árabe), que reuniu até um terço dos 4,5 milhões de habitantes, segundo ONGs locais, ficou confinada às redes. Em 24 horas, as ruas libanesas passaram da agitação dos tumultos ao silêncio e pânico do vírus.