O ESTADO DE S.PAULO – 18/04/2020

Bianca Gomes

Após ser alvo de críticas do presidente Jair Bolsonaro na noite de anteontem, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEMRJ), sofreu o maior ataque do ano a suas redes sociais. Apenas no Twitter, 238 mil perfis publicaram 1,6 milhão postagens contra o parlamentar nos últimos dois dias.


Segundo levantamento feito pela consultoria Bites, que considerou o uso da hashtag (palavra-chave) #ForaMaia das 21h de quinta-feira às 18h de ontem, a soma dos ataques bolsonaristas no Twitter equivale a 71% de tudo o que se falou de negativo sobre o parlamentar na rede social em 2020. Isso levou a hashtag ao topo das frases mais mencionadas no Twitter.

Anteontem, Bolsonaro afirmou que a atuação de Maia era “péssima” e insinuou que o deputado trama contra seu governo. “O sentimento que eu tenho é que ele não quer amenizar os problemas. Ele quer atacar o governo federal, enfiar a faca. Parece que a intenção é me tirar do governo. Quero crer que esteja equivocado”, disse o presidente à rede de TV CNN.

Políite). Ele joga pedras e o Parlamento vai jogar flores”, afirmou, também à CNN. No mesmo dia, junto ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), ele divulgou uma nota em defesa de Mandetta e dizendo que sua saída não é positiva e será sentida por todos.

Deputados. Os ataques a Maia também partiram dos próprios parlamentares. Foram mapeadas 29 postagens contra ele no Twitter, Instagram e Facebook, com um alcance total de 323 mil interações. O recordista foi o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente. Em publicação no Facebook em que reproduz entrevista em que o presidente confronta Maia, o filho do presidente conseguiu 53 mil interações. Outro ataque partiu da deputada Alê Silva (PSL-MG), que atingiu 7,6 mil curtidas as escrever que Maia ataca a economia para desestabilizar o governo.

De acordo com a consultoria Bites, parlamentares do PT e o deputado Alexandre Frota (PSDB-SP) foram os mais enfáticos na defesa do presidente da Câmara. Até pouco tempo aliado do presidente, Frota afirmou que Maia “foi espancado pelo Bolsonaro, mas não caiu no conto do vigário”. “Agora, Rodrigo, você tem nas mãos nossos pedidos de impeachment”, escreveu o deputado em sua conta no Twitter. O líder do PT na Câmara, deputado Enio Verri, disse que a acusação de Bolsonaro contra Maia é uma afronta à sociedade.

O cientista político Humberto Dantas, head de Educação do Centro de Liderança Pública (CLP), afirma que a Justiça deverá fazer uma varredura nos ataques bolsonaristas nas redes sociais. “Existe a ideia de que grande parte desses perfis é composta por robôs, além de uma consciência da existência de um gabinete do ódio no Planalto. Se isso estiver sendo feito com dinheiro público, é criminoso e precisa ser punido.”

Alvo da CPMI das Fake News no Congresso, o chamado “gabinete do ódio” é um núcleo ideológico do governo, do qual Carlos Bolsonaro faria parte, que tem ganhado espaço durante a crise do coronavírus.

A demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, apesar de colocada como a razão do embate entre Maia e Bolsonaro, não é o principal motivo das desavenças, segundo Dantas. “O pano de fundo é a Câmara ter aprovado o pedido de entrega do exame da covid19 do presidente em 30 dias. Esse, sim, foi um dos maiores ataques do Legislativo ao Executivo neste mandato e que pode levar a um crime de responsabilidade”, afirma o analista.


CPI identifica bolsonarista em rede de ataque a políticos
Estudante de Medicina controla perfil nas redes que critica adversários do presidente e incentiva atos pró-governo
O Estado de S. Paulo18 Apr 2020Felipe Frazão Patrik Camporez / BRASÍLIA
As quebras de sigilos aprovadas pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Fake News permitiram identificar quem são os responsáveis por operar dois dos perfis suspeitos de integrar uma rede de ataques virtuais a políticos. Com base em dados enviados ao Congresso pelo Facebook, o Estado localizou duas pessoas, em São Paulo e em Minas Gerais, que entraram na mira do colegiado. Elas alimentam perfis com os codinomes “PresidenteBolsonaroBR – Mito do Brasil” e “Conservador Liberal”, ambos com mais de 100 mil seguidores.

O “Conservador Liberal” pertence a Webert Florêncio, de 25 anos, morador de Ipatinga (MG), um militante de direita. Evangélico e estudante de Medicina, Florêncio passou a apoiar Bolsonaro em 2016 e fez parte de grupos como o “Direita Minas”. Hoje é entusiasta do partido bolsonarista em gestação, o Aliança pelo Brasil. Na eleição de 2014, fez campanha para Aécio Neves (PSDB). A Justiça Eleitoral não registra filiação partidária dele.

À reportagem, Florêncio disse que jamais ocupou cargos comissionados ou recebeu dinheiro para manter as páginas.

Além do Instagram, onde possui 120 mil seguidores, o estudante administra mais três páginas no Facebook, todas com uma fotografia de Margaret Tatcher, a ex-premiê britânica conhecida como “Dama de Ferro”. Uma delas é uma página oficial do Conservador Liberal, além de um grupo público e as páginas de notícias “Conservador Liberal News” e de sátiras “Conservador Liberal em Memes”. São mais de 208 mil pessoas atingidas.

As páginas dele reproduzem ofensas a adversários políticos de Bolsonaro, como deputados do PSOL, e incentivos a manifestações pró-governo e contrárias ao Congresso e ao STF. Ele escreveu “chega de chantagem” e reproduziu o palavrão dito pelo ministro Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) contra os demais poderes: “Foda-se”. Nos últimos dias, fez coro às críticas ao ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta a forma de reação à pandemia do novo coronavírus. Apesar disso, Florêncio diz que apenas compartilha notícias e opiniões, sem difamar nas redes.

“A CPI é uma maneira de tentar calar, mas não adianta porque se eu parar outros vão falar. A rede social levou o povo para perto dos políticos, e a cobrança incomoda. Político tem que saber ouvir crítica em vez de processar”, disse o estudante.

A conta “Mito do Brasil” no Instagram é vinculada a um telefone e e-mail de Mariana Aparecida Rosa de Campos, de 39 anos, moradora de Osasco (SP). Ela é responsável por abastecer de conteúdo o perfil, que retrata o dia a dia do presidente e família. O alcance é de 168 mil pessoas. O Estado telefonou para Mariana, mas ela não atendeu as chamadas. Segundo dados do TSE, ela não possui filiação partidária.

Filho do presidente. Os dados que levaram à identificação de Florêncio e Mariana chegaram à CPI em março, numa leva que também possibilitou aos investigadores estabelecer elo direto com o clã presidencial. A conta “Bolso_Feios” foi criada em Brasília por Eduardo Guimarães, assessor parlamentar do deputado Eduardo Bolsonaro (PSLSP), filho do presidente. Ele alega que o perfil era apenas uma sátira à família, sem divulgar ataques a adversários políticos, o que contraria registros de publicações ofensivas da página.