O GLOBO – 18/04/2020

MARCELO NINIO 

Não há muitas brechas na muralha erguida pelo governo chinês para controlar as informações que circulam no país, e a crise do coronavírus elevou a vigilância dos censores para coibir quem questiona a linha oficial. A imprensa do país é dominada pelos veículos estatais, que seguem as diretrizes do Partido Comunista. Mas há exceções. O caso mais conhecido é o do grupo de mídia Caixin, que nesta crise manteve sua reputação de jornalismo independente num dos países mais restritivos do mundo. Com mais de 200 jornalistas, o grupo fui um dos primeiros a publicar indícios da demora das autoridades em tomar medidas mais sérias para conter o coronavírus na primeira metade de janeiro, quando já se sabia da gravidade do problema.

Uma das reportagens de maior repercussão indicou que as casas funerárias de Wuhan, marco zero da epidemia, estavam recebendo milhares de urnas funerárias por dia, o que reforçou o ceticismo sobre o número de mortos anunciado pelo governo. Fundada em 2010, a Caixin (notícias financeiras, em mandarim) é conhecida pelo histórico de reportagens sobre corrupção, sobretudo na área econômica, que rendeu à fundadora da revista, Hu Shulin, o título de “a mulher mais perigosa da China” na imprensa. Antes de fundar a Caixin, Hu, 67 anos, já era uma das jornalistas mais respeitadas do país, como editora da revista Caijin, e se destacou na cobertura da epidemia de Sars (2002-2004).


EXPERIÊNCIA ANTICENSURA

Críticos, no entanto, afirmam que a revista é só um peão no jogo de interesses dos poderosos, e lembram uma suposta proximidade de Hu com o influente vice-presidente chinês, Wang Qishan. Maria Repnikova, especialista em comunicação política da Universidade da Geórgia, acredita que o papel crítico da mídia na China é subestimado. Embora não haja tolerância para prestação de contas do governo central, muitos jornalistas investigativos causam impacto, principalmente em nível local. Um dos artifícios para escapar da censura é publicar fora da província que é alvo da reportagem. Segundo ela, a mídia na China durante a crise teve dois momentos: no início, houve espaço para alguns veículos e “jornalistas cidadãos” pressionarem o governo a reconhecer a extensão da crise. Mas logo o partido se mobilizou, e a imprensa passou a ter o papel de disseminar “energia positiva”, enfatizando os sucessos do governo e publicando histórias individuais que sinalizavam união nacional. Nesse cenário, a Caixin teve a seu favor uma longa história de “práticas perspicazes” de reportagem. —A Caixin tem alguns dos melhores jornalistas da China e uma longa experiência em driblar os limites do possível. É também uma revista financeira, o que a torna menos sensível —explica. — Suas reportagens são produzidas como uma pesquisa científica e raramente é publicada qualquer provocação pessoal. Seu estilo é construtivo, oferece soluções para os problemas. A revista virou uma rara referência de jornalismo investigativo “Made in China”, mas no país, é alvo de críticas por expor temas incômodos. Além de manter um time de repórteres em Wuhan nos 76 dias em que a cidade ficou em quarentena coletiva, a Caixin publicou o blog “Diário de Wuhan”, em que a escritora Fangfang atraiu milhões de leitores ao relatar os dias em isolamento no epicentro da pandemia. O sucesso virou tempestade política quando setores nacionalistas passaram a atacar a escritora por macular a imagem da China ao aceitar publicar o diário em livros em inglês e alemão. “Quantas pessoas morreram em Wuhan e tiveram suas famílias destruídas?”, escreveu Fangfang. “Mas até agora ninguém pediu desculpas ou assumiu responsabilidade. Eu vi um escritor usar a frase ‘vitória completa’. Do que eles estão falando?”