O GLOBO – 19/04/2020

Fazia um tempo que o estudante de Engenharia Ambiental Lucas Braga, de 19 anos, queria aprende rafa zeros bordados praticados pela mãe, a tradutora Mar cia Braga, de 55. A correria do dia adia, porém, sempre o afastava da agulha e das linhas. Isso mudou com as recomendações de isolamento para quem pode ficar em casa durante a pandemia de coronavírus, quando ele se viu em busca de algo para distrair amente numa situação tão atípica. Enquanto cursa parte de sua graduação on-line, o jovem tem encontrado na técnica artesanal um alívio para dias incertos.


— Às vezes, fico muito nervoso, e o bordado tem sido ótimo para me tranquilizar. Também é um jeito de passar mais tempo co maminha mãe— conta o carioca, que tem se sentado ao lado dela pelo menos três vezes por semana para aprender o trabalho manual. Ele não está só. Desde que governos de todo o mundo baixaram normas para que as pessoas permaneçam em casa pela maior quantidade de tempo possível, a tecnologia logo entrou em cena. Festas migraram para o ambiente virtual e chamadas de vídeo aliviaram corações. Mas, assim como Lucas e a mãe, muita gente tem achado conforto em recursos que já estavam presentes em nossas vidas muito antes dos smartphones e do 4G. Jogos de tabuleiro e até cartas feitasà mão têmvol ta doàr otina de muitas famílias.

VÁLVULAS DE ESCAPE

Assim como o filho, Marcia também reconhece que o período tem sido de muita ansiedade, especialmente depois que ela precisou se afastar dos pais, idosos. — Aprendi a bordar há menos de dois anos no ateliê Pequena Estufa e, desde então, faço desenhos variados. É terapêutico e me ajuda a suportar a pressão —diz ela. —Nos primeiros dias de isolamento, estava muito angustiada e não conseguia parar para praticar. Mas aí comecei a me obrigar a tirar um tempo para os bordados, o que tem me feito muito bem em meio a essa montanha-russa de emoções. A mesma sensação é relatada pela fisioterapeuta Adriana Nicodemus, de 48 anos, que encontrou refúgio nos jogos de quebra-cabeças que estavam guardados em casa. Moradora de Petrópolis, ela tem o hábito de comprá-los em viagens, como recordação das paisagens visitadas, mas nunca teve tempo para juntar as peças. Agora, já está indo para a terceira caixa, ao lado de seu companheiro.

—Tínhamos umas dez unidades guardadas e compramos mais duas pela internet. Já montamos duas de 500 peças e estamos terminando uma terceira, de mil. A próxima será de 1.500. Quando finalizamos, emolduramos e presenteamos amigos – diz Adriana. — Todos os dias, ao final da tarde, a gente se senta para montar. É ótimo porque tiramos o foco da pandemia. No sítio onde a família da estilista Olívia Aragão, de 36 anos, se reuniu durante a pandemia, os jogos de tabuleiro da infância já não estavam nos armários, porque foram doados pela falta de uso. Mas isso não impediu que ela reativasse um de seus passatempos favoritos do passado: o jogo Detetive, em que os participantes precisam desvendar um assassinato. — Chegamos à conclusão de que só tínhamos um baralho e resolvemos fazer a brincadeira com as próprias mãos. Desenhamos o tabuleiro numa folha de papel-paraná e criamos as cartas em canson. Nomeamos os personagens com os nossos apelidos e usamos os próprios espaços do sítio como possíveis cenas do crime, como o curral e o orquidário —descreve Olívia, que tem divido a propriedade localizada em Juiz de Fora, Minas Gerais, com outros seis familiares. Assim que a permanência em casa por um longo período se tornou iminente, ela até cogitou produzir conteúdo para as suas redes sociais. Mas, ao ver o excesso de informações no ambiente virtual, achou que valia mais a pena se desconectar um pouco: – Não queria ficar escrava da tecnologia e achei que era hora de aproveitar a minha família. E, nesse sentido, o jogo é ótimo. Temos jogado dia sim, dia não, reunidos em volta da mesa, tomando uma cerveja ou um vinho. Em contraponto ao imediatismo dos chats, uma das formas mais antigas de comunicação está de volta no cotidiano da quarentena. A publicitária Mariana Loureiro, de 23 anos, viu a demanda no seu clube de cartas Envelope de Papel crescer exponencialmente nos últimos dias. Com perfis no Instagram e no Facebook, além de um site, o clube reúne 1.300 pessoas que trocam correspondências. Em média, ela recebia cerca de 15 novos participantes por semana. Agora, esse número dobrou. —A tecnologia causa muita ansiedade, e as cartas são uma válvula de escape —diz a jovem, moradora de Santa Luzia, região metropolitana de Belo Horizonte. A própria Mariana gosta de se sentar à mesa da sala, diante do jardim de casa, para produzir sua cartas, decoradas com canetas coloridas, num ritual que costuma repetir aos fins de tarde. Parte de uma geração que já nasceu em meio a outras formas de comunicação, ela se interessou pelos relatos feitos à mão ao ouvir o pai contar sobre como trocava cartões- postais com pessoas do mundo inteiro entre os anos 1980 e 1990. Na opinião dela, essas correspondências proporcionam uma troca de experiências mais genuína: — Falamos sobre nós e lemos sobre os outros sem nos conhecer fisicamente. Então, não tem como julgar pela aparência.

Com tanta gente se exibindo nas lives, soa como um exercício pertinente nesses tempos.